terça-feira, 25 de julho de 2017

CONTO: A FEIRA MAIS FEIA


A FEIRA MAIS FEIA

Ellen Oliveira

- Acorda, filho! – Dizia a voz de mainha distante, que jurava que era um sonho, e, por isso, resistir na cama, mas ela continuou a insistir, então respondi:
- Ah, mainha! Deixa eu dormir ainda tá cedo pra ir pra aula... – Disse ao ver que no relógio velho da parede que não passava das quatro da madrugada...
- Filho, sei que você tá cansado mas tem que levantar... venha... Você e seus irmãos não vão à aula hoje...  – Disse mainha tentando me tirar da cama.
- Poxa, mainha! – Resmunguei sonolento.
- Temos que ir à feira, filho...  – Disse mainha já pronta pro trabalho.
- Ir à feira? – Perguntei com cara de quem ainda dormia.
- Sim... Esqueceu que não estamos mais na nossa casa... Lá tinha uma hortinha familiar que eu ajudei seu pai a construir... Agora não temos mais nem direito a isso... – Disse mainha com a voz de inconformada.
- A gente vai fazer compras é? – Perguntei lembrando que tinha ido dormir com fome porque não tinha nada pra comer.
- Não, filho... Vamos trabalhar...  – Disse mainha já dando a real.
- Trabalhar, mainha? – Perguntei assustado.
- Sim, meu amor... Vou ter que voltar a vender na barraca e você e seus irmãos, infelizmente, até as coisas melhorarem, vão ter que me ajudar pegando carrego mais seus irmãos, como mainha fazia mais seus tios quando éramos crianças... – Disse mainha relembrando um passado triste.
- Ah, mainha... Por quê? Eu não quero pegar carrego não.... Dói os braços... Melhor ir pra escola...
- Não podemos, meu amor! Sem bolsa família e com o salário atrasado, vamos ter que nos virar senão não vamos conseguir sair desse barraco... – Disse mainha falando do barraco que estávamos morando à beira da seca, que um dia foi um rio.
Levantei emburrado da cama e empurrado pro trabalho. Não quis nem comer, queria fazer greve de fome, o que não seria difícil com a faltura que tava lá em casa, digo no nosso barraco. Em pensar que a gente já foi tão feliz, teve carro, horta, uma boa casa e painho lá cuidando da gente, nos dando comida, boa educação, amor e carinho. Pena que ele teve que ir pro Sul tratar o câncer, mas um dia ele volta e bem fortão pra tirar o padrasto lá de casa. Aí sim a nossa vida vai voltar a ser feliz como antes. Me apegava aquela esperança, numa doce e linda inocência de criança. Mas a realidade era cruel e cheia de temor. Mainha nos chamou lá da rua, saímos os três com os carrinhos de mão velhos, antigos, do tempo que meus tios usavam pra trabalhar na infância, que o padrasto e o juiz do mal deixaram a gente levar da nossa casa.
O tempo estava horrível, chovia sem cessar. A rua toda enlameada, mas mainha determinada a ir trabalhar e a gente foi junto com ela. Caminhávamos pelo lado esquerdo da rua quando à direita passou um desfile de carros luxuosos e adivinhe quem eram? O padrasto e seu filho mauricinho, espinhento com seu pato, o cara de bosta e seu filho Hitler, o cara de tucano sorridente com seu filho Aecinho, justiceiro do mal e seu filho Serginho, e o cara de cunhã com seu filho cara de tarado. O vampirão foi o primeiro a jogar o carro na poça d’água pra tentar sujar mainha de lama, depois os amigos deles fizeram o mesmo, mas mainha muito esperta e ágil conseguiu driblar as manobras sujas dos homens maus. Com dificuldades chegamos à feira, que por ser ao ar livre, e no meio da rua, estava toda enlameada. Mainha foi pra barraca dela, arrumar as frutas e os legumes pra venda, que um homem trouxe num caixote, ela me deu uma maçã argentina pra comer e depois eu me juntei ao grupo de crianças à esquerda, que aguardavam os clientes.
-  Isso tá muito errado, sabiam? – Dizia uma menina negra que estava à nossa frente.
- O que que tá errado? – Perguntei a menina que parecia mais alta que eu.
- Fazerem a gente trabalhar que nem escravos... – Disse ela com a mesma voz de revolta que mainha faz.
- Tão fazendo isso é? – Perguntei, inocente.
- Claro, guri... Não tá vendo? – Perguntou ela com voz de briga, e eu logo respondi no susto:
- Tô! Tô vendo, sim! Como é seu nome? – Perguntei curioso.
- Tereza de Benguela. – Disse ela bem séria.
- Tereza Banguela... – Perguntei achando ela engraçada.
- Não... Tereza de Benguela. – Respondeu firme e séria.
- Ah, tá... Entendi. -  Respondi segurando a graça.
- E o seu? – Perguntou olhando pra mim.
- José... – Respondi com simplicidade.
- José de que? José piolho? – Disse ela brincando, me deixando sem graça. Ia responder mas a outra menina entro na conversa chamando a atenção...
- Tereza, viu só? – Disse outra menina negrinha...
- Não, o quê? Perguntou ela, e eu só olhava tentando ver.
- O guarda bateu na guria... Aquele cavalão... A menina deve ter o quê? Oito anos? – Disse com a voz de revolta, a menina que pra mim ainda era anônima, e continuou: - Que absurdo! Aposto que bateu nela só porque é menina e neguinha... – Falou a menina em pé com uma cara de raiva que eu nunca tinha visto antes.
- O que vamos fazer? – Perguntou Tereza, furiosa.
- Não sei, Tereza... Mas deveríamos fazer alguma coisa um dia... Pra acabar com essas coisas... – Disse Antonieta pensativa.
- Tipo o quê? – Perguntou Tereza.
- Não sei... Mas uma manifestação, ou uma revolução, aqui na feira... – Disse Tereza olhando pro além.
- E isso ia resolver? – Perguntou Antonieta, ainda pensando.
- Talvez... Mas temos que tentar... O que mais poderíamos fazer? – Disse Tereza perguntando.
- Não sei... Mas penso que se um dia fosse política ou escritora poderia fazer muito mais coisa que uma manifestação, ou uma revolução... – Disse Antonieta caminhando de  trás pra frente.
- Ah, seria bom... – Disse Tereza.
- Eu queria fazer alguma coisa pra tirar o padrasto lá da casa... – Disse eu, sentindo que falava por todos os meus irmãos.
- Por que ele é um homem ruim? Não vai me dizer que bate em você? – Perguntou a Tereza.
- Ele bateu em mainha uma vez... traiu ela... e ainda expulsou a gente de nossa casa... – Disse triste.
- Nossa, que monstro! Você denunciou quando ele bateu em sua mãe?– Perguntou outra menina chamada Maria da penha, entrando na conversa.
- Não... Não sabia como... Mas eu briguei com ele... – Disse fazendo-me de guerreiro como painho.
- Tinha que ter denunciado... Era só ligar 180... – Dizia a Maria me ensinando a denunciar o Padrasto.
- Eu não sabia... – Disse envergonhado entre as meninas.
- Agora você já sabe! – Disse Maria firme pra mim.
- Tá certo... Da próxima vez eu denuncio... – Prometi.
- Ai, gente tem tanta coisa errada nesse país...– Disse a Antonieta olhando pro céu nublado.
- Nem me fale, Antonieta! Nem me fale... Queria poder fazer algo pra trazer mais igualdade e respeito pra nós negros, os pobres...  Dá uma revolta, às vezes. – Disse a Tereza com cara de luta. 
- Eu queria que painho voltasse pra casa... – Disse Luizinho que a pouco havia chegado de um carrego todo cansado, tadinho.
- Eu também, mano! Pra ele colocar o padrasto pra correr... – Disse numa raiva só.
Ficaríamos ali a manhã inteira falando de sonhos, de lutas, mas a feira começava a encher e era hora de ir à labuta e abandonar, por enquanto, os planos pro futuro. Nessa ladainha, carrego vai, carrego vem, e o tempo passou nesse vai e vem dos carrinhos. Ia dar cinco da tarde, estávamos todos mortinhos da Silva de tanto trabalhar. Mainha nos chamou pra irmos pra casa, digo, pro barraco na seca.
- Crianças, vamos? – Chamou mainha.
- Graças a Deus! Disse me levantando da calçada e pegando o carrinho, e dei tchau às três meninas, que pareciam mais as meninas super poderosas.
- Quem são elas, filho? – Perguntou mainha ao ver as meninas trabalhadoras.
- A da frente é Antonieta de Barros, a do meio é Maria da Penha, e a da esquerda é Tereza de Benguela.  – Respondi apontando pra elas.
- Parecem legais. – Disse mainha olhando pra elas com carinho.
- São sim, mainhas. Elas querem mudar o mundo... – Disse eu com voz de esperança.
- Nossa, isso é bom! Precisamos de mulheres que pensem como essas meninas... – Disse mainha confiante.
- Verdade, mainha! – Disse, e perguntei logo em seguida: Mainha, a senhora vendeu muito?
- Mais ou menos filho... Trouxe umas coisas que sobraram pra gente... – Disse mainha com os restos da feira.
- Que bom! Tome o dinheiro que a gente conseguiu com os carregos... – Disse entregando a ela a mochila com os trocados.
- Dá aqui, filho! Vai dar pra comprar cadernos, lápis e sandálias novas pra vocês irem pra escola... O resto a gente vai se virando como pode!
- Tá certo, mainha.
- Dá uma dor no coração por vocês perderem aula pra trabalhar... Mas prometo que vou lutar pra resolver essa situação, e com fé em Deus vocês não vão mais precisar faltar aula pra trabalhar... Lugar de criança é na escola. – Disse mainha, nos abraçando e beijando na testa.
Enquanto voltávamos para casa tive uma visão que me entristeceu muito e me deixou cheio de temor. Puxei o braço esquerdo de mainha pra chamar a atenção dela:- Mainha, mainha...
- O que foi, meu filho? – Perguntou voltando-se pra mim.
- O que aquelas crianças estão fazendo ali no lixão... – Disse assustado ao ver crianças imundas catando coisas no lixão, ao lado da seca que um dia foi rio, e colocar dentro de carrinhos velhos.
- É meu filho... Aquela é a feira delas... Estão catando restos de comidas pra levar pra casa... – Disse mainha com cara de dor.
- Nossa, mainha! Que triste! – Disse na maior tristeza do mundo.
- Muito triste, mesmo, meu filho! É de dá dor no coração... – Disse mainha com cara de cansaço, tristeza e sofrimento.
- É a feira mais feia que eu já vi na minha vida, mainha! – Disse interpretando a cena.

- É sim, meu filho! É sim. – Disse mainha, e voltamos pra nossa realidade, pro nosso barraco, até Deus sabe lá quando.

CONTO: O JUIZ DOS MENORES


O JUIZ DOS MENORES

Ellen Oliveira

Era um dia de tempestade, havíamos ido visitar um imóvel que os amigos do padrasto haviam indicado. Queriam que nós morássemos lá. Ao chegar no local, fui o primeiro a entrar. O mal estava feito. José estirado no chão, morto de forma mais cruel e brutal possível, o coração havia sido arrancado e as paredes lavadas com o sangue inocente.  Chorei lágrimas de sangue pela injustiça que fizeram com o meu querido José.  Uma bolsa de dinheiro ensanguentada aberta como um ímã maldito, no meio o coração da vítima. Num impulso, a primeira coisa que veio em mente foi salvar o coração, achando que com isso salvaria o José.  Enquanto saia correndo daquela visita trágica ao local, mainha entrou e quase não sobreviveu àquele terrível Golpe, caiu em depressão. Eu e José éramos irmãos, unha e carne, o que era meu, era dele e o que era dele era meu. Nossa mãe, era só amor, ela nos acolhia com seu imenso coração de mãe. Bem diferente do padrasto que só tinha ódio no coração. Ele e seus amigos só viviam maltratando a gente. Não demorou muito, tanto fizeram que conseguiram me acusar injustamente e me levar ao julgamento dos homens grandes. Os três grandões vieram pra cima de mim querendo me prender
- Me soltem! Eu não sou bandido nem assassino pra ser levado pela polícia... me soltem! Me soltem! Eu não fiz nada! – Gritava e lutava, pois era inocente.
- Ele tem razão! Ele deve ser julgado por quem tem competência para julgá-lo... Ele deve ser julgado pelo juizado de menores... – Disse mainha, encontrando forças pra me defender.
- Mainha tem razão... Não é vocês que tem que me julgar, não... É o Juizado dos menores... – Disse eu na maior valentia dos guerreiros justos e inocentes.
Alguns dias se passaram até chegar o famoso julgamento. Digo famoso porque tava dando em tudo que era mídia Global que eu era culpado, bem antes mesmo de ser julgado. Até invadiram minha casa, me levaram forçado a um interrogatório sem nem ao menos me avisar, não deu tempo nem de vestir a roupa, fui de sunga e com a boca suja de pasta de dente.... Aquilo foi uma humilhação, e das grandes. Dá pra acreditar que gravaram até as minhas conversas? Até um desenho inocente que fiz pra mainha lembrar de mim e do José estavam usando como provas... Não caí em depressão porque eu era corinthianos e meu time tava ganhando. Às vezes, é uma torcida do nosso time que nos dá forças e ameniza a dor das coisas ruins da vida. Porque é aí que a gente entende que a vida é feita de perdas, mas de vitórias também. E ultimamente tinha muita gente me acusando, mas tinha muito mais gente torcendo, uma nação tricolor, o verdadeiro tripléx do amor.
Depois de dias de sofrimento e tortura, em que mal me deixaram falar, me defender da acusação de ter matado o José da forma mais vergonhosa e trágica, de ter pego a bolsa do dinheiro, e ter lavado o apartamento com sangue, e roubado o coração do irmão, chegou o grande dia do julgamento. E adivinhem... Era o tal juiz amigo do padrasto que eu havia enfrentado uns dias antes. Pronto! Era agora que ele ia se vingar de mim, pensei comigo mesmo.
- Luiz da Silva Junior, promete dizer a verdade, somente a verdade? – Perguntou o juiz antes de dar início ao julgamento.
- Eu prometo, seu juiz dos menores! E o senhor promete que vai ouvir minha verdade? – Respondi e perguntei, porque sou ousado mesmo.
- Atente somente a responder o que lhe for perguntado pelo advogado de acusação... Ok? Quem faz as perguntas é ele! – Disse achando que ia me calar.
- Grande novidade! – Respondi na cara dele.
- Silêncio! Tem certeza que está disposto a falar a verdade? As perguntas serão difíceis... – Disse tentando me intimidar.
- Eu não tenho medo da sua maldade! Eu só falo a verdade! – Respondi, e ele deu ordem para iniciar o julgamento como quem dava início a uma guerra.
- O que você foi fazer no imóvel e por quê?- Foi a primeira pergunta que o advogado acusador dez.
- A culpa é do padrasto e não minha... Ele não gostava de me ver na casa... Ele até deu um Golpe pra ficar com a nossa casa e tava destruindo ela todinha, dizendo que era uma tal de reforma... Ele até brigou comigo, ficou me apertando, e até mandou o juiz dos menores me prender... Tá lembrado? – Disse ao advogado me dirigindo ao juiz amigo do padrasto.
- Já disse, e repito, se atente a responder ao interrogatório... Afinal, quem está sendo julgado é você... – Falou o juiz, olhando pro lado direito do recinto.
- Vocês tão me condenando e não querem me deixar falar... Só querem que eu diga o que vocês querem ouvir... Assim não vale!  – Falei mesmo.
- Silêncio! Ordem no tribunal! – Dizia o juiz dos menores e, me ignorando, continuou: - Prossiga advogado de acusação!
- Vou repetir a pergunta: o que você estava fazendo no imóvel? – Perguntou o acusador.
- Eu fui acompanhar mainha, mas José... Os amigos do padrasto que indicou o móvel...  – Disse pensando que eles armaram aquela armadilha.
- É imóvel, não móvel... – Quis me corrigir, o doutor.
- É móvel sim... Porque ninguém sabe de quem é... E fica o tempo todo mudando de dono... – Falei mesmo, deixando eles sem graça.
- Enfim... Vamos aos fatos! Você matou o José, lavou o imóvel com o sangue dele, roubou a bolsa de dinheiro e o coração dele... – Acusava o advogado sem nenhuma prova.
- Mentira! Eu não fiz isso que vocês tão dizendo... Quero ver provar! – Disse revoltado com a acusação.
- E quem matou o José, então? – Perguntou o advogado.
- Não fui eu! – Respondi.
- Quem foi que lavou o imóvel com o sangue inocente? – Perguntou ele.
- Não fui eu! – Respondi mais uma vez.
- Quem foi que roubou a bolsa do dinheiro? – Perguntou ele.
- Não fui eu! – Respondi de novo.
- Se não foi você, então quem foi? – Perguntou ele com a maior cara cínica.
- Sei lá... pode ter sido o padrasto, ou os ratos, ou alguém pra me incriminar... – Disse sem fazer ideia da resposta.
- Você tem como provar isso? – Perguntou o advogado se achando esperto.
- E você tem como provar que fui eu? – Respondi perguntando mesmo.
- Já disse pra se atentar às perguntas! – Insistiu o juiz do mal.
- Só tô me defendendo... Cadê as provas? – Perguntei mesmo, pois não ia ficar calado enquanto me acusavam sem nenhuma prova.
- Silêncio! – Disse o juiz com o dedo direito nos lábios e piscando com o olho direito pra o padrasto e os amigos dele, depois deu ordem pra seguir com o julgamento.
- Mais uma pergunta: quem roubou o coração de José? – Perguntou o advogado, já sabendo dessa resposta...
- Agora sim, isso foi eu... – Confirmei.
- Tá vendo, meritíssimo!  Ele é culpado, seu Juiz? Disse o advogado ao juiz  cara de meretriz.
- Hum! Isso é interessante! Prossiga... – Disse ele com cara de convicção em não sei o quê.
- Por que você roubou o coração do José? – Perguntou o advogado de acusação com cara de ódio.
- Eu tinha esperança de ressuscitar ele... Queria proteger, cuidar... – Disse triste pensando no meu querido José.
- Então você confessa sua culpa? – Perguntou o advogado sem dó nem piedade.
- A minha única culpa foi de ter roubado o coração do José! Se isso é crime, então eu o confesso...
- Concluo que isso já é o suficiente, meritíssimo! – Disse o advogado de acusação com a maior revolta do mundo.
Aquele julgamento parecia mais um duelo só que de palavras, em vez de espadas. E era cada corte injusto. Enquanto aguardava a sentença, vi que o padrasto fazia um gesto com os dedos imitando uma tesoura, parecia que mandava cortar alguma coisa, o cara de tucano sorridente sorria feliz da vida com a tragédia, o cara de cunhão só sabia dormir na sessão, a tal da Cris Marinho ficava filmando tudo com o celular, aposto que a gravação ia vazar pro esgoto, os ratos fariam a festa...
- Atenção, já tenho a sentença final do julgamento. – Disse ele sem nenhum ar de surpresa, e atraindo para si todas as atenções, traindo . O olhar dele estava mais preso à gente da direita, e foi sem nem sequem me olhar nos olhos que ele determinou:
- Determino Luiz da Silva Junior como culpado!  E condenado a nove anos e meio – Falou o juiz sem nem ler direito o processo.
- Eu sabia que ele ia dizer isso... Justiceiro do mal! – Gritei bem alto aos quatro cantos.
- Silêncio! - Dizia o advogado.
- Eu digo mesmo... Ele tá é se vingando de mim... – Disse inconformado com a injustiça.
Quando deixamos o julgamento, as ruas haviam sido tomadas por uma imensa multidão que gritava em defesa da democracia e do Lula. Adormeci no ônibus, e durante a viagem de volta pra casa tive um lindo sonho. Nele José havia ressuscitado e estávamos felizes em casa, painho havia voltado com mainha, e já não havia nem sinal do padrasto e do juiz dos menores.




segunda-feira, 24 de julho de 2017

CONTO: PAGANDO O PATO


PAGANDO O PATO

Ellen Oliveira

- É hoje que a cobra vai fumar! – Disse mainha, com cara de revolta.
- O que foi, mainha? – Perguntei com cara de temor.
- Seu pai, deu um Golpe e nos enxotou de casa que nem cães vira-latas e não tá pagando a pensão... Pra piorar cortaram o Bolsa Família... E pra completar a tragédia o governo disse que vai parcelar o pagamento de todos os servidores públicos, de novo... – Disse mainha, que era merendeira na escola pública do estado, e agora pagava um aluguel com dificuldades.
- Eita, mainha! E agora? – Perguntei aflito.
- Vou lá tirar satisfação com seu pai...  Não vou esquecer nunca que ele deu um Golpe pra ficar com a casa e agora faz o que bem quer... Pensa que vai ficar assim, tá muito enganado... – Disse mainha toda revoltada.
- Ele não é meu pai não, mainha... É padrasto... – Disse eu, com raiva mesmo.
- Modo de falar, filho... Dizem que pai é o que cria... – Disse mainha tentando corrigir o engano.
- Ele não me criou a gente não, mainha... Ele só criou foi coisa ruim pra gente... Isso sim! – Disse corrigindo mainha.
- Tá certo, meu filho! Você tá certo! – Disse mainha toda triste, tadinha.
- E quando ele vai devolver nossa casa, hein mainha? – Perguntei ao ver mainha olhando a bolsa e confirmando que a chave estava lá.
- Não sei meu filho! Tô lutando pra a gente voltar logo logo pra nosso casa... Que é nossa por direito!... Mas tá difícil... Ele se acha muito alto! – Dizia mainha, triste e pensativa, mas com cara de luta.
- Mainha... – Começei a ensaiar a fala, mas temi continuar...
- O quê? Diga... Pode falar! – Disse mainha ao ver que eu estava meio com medo de falar.
- É que é o dia das crianças, mainha... – Disse lembrando a ela do nosso dia.
- Ah, meu filho! Na situação que a gente se encontra nem tenha esperança de ganhar nada não... Mas não fique triste! Em breve as coisas vão melhorar... Você vai ver! A gente vai sorrir de novo...  E tem mais, dia das crianças é todo dia! – Disse mainha.
- Eu vi um pato tão bonito lá na loja... – Falei lembrando de um pato de brinquedo.
- Ah, meu filho! Sinto muito, meu amor, mas não podemos pagar por esse pato... – Disse mainha bem séria!
- Tá bom, mainha! – Aceitei, porque mainha entende das coisas.
- Vai se arrumar pra gente ir lá lutar por nossa casa... – Disse mainha, com a fé e esperança de uma guerreira ferida, mas não vencida.
- A senhora vai expulsar o homem mal da nossa casa, é mainha? – Disse eu sentindo o ânimo da luta e da revolta.
- Se for preciso vou sim, meu amor! Temos que lutar e defender o que é nosso! – Disse mainha.
- Mainha, eu vou com a senhora pra te defender dele... – Falei pra mainha me sentindo homem igual a painho, meu verdadeiro pai.
- Tá bom, meu amor! Mas mainha é forte e sabe brigar, viu! – Disse mainha com cara de leoa.
- Cheguei, família! – Disse a maninha chegando mais cedo que de costume.
- Já, filha? – Disse mainha estranhando a chegada de minha irmã.
- Sim, mainha! Tá a maior zueira lá na Faculdade... – Disse maninha.
- Por que? O que houve?
- Os alunos estão revoltados com os cortes do Fies... Alguns não vão mais conseguir estudar... Dá pra acreditar nisso? – Disse a mana revoltada.
- Caramba! Porque tão fazendo isso? Tão acabando com tudo... – Disse mainha inconformada.
- Disseram que tem que reduzir os gastos do Governo Federal... – Explicou maninha...
- Ah, e por isso os estudantes têm que pagar o pato? – Perguntou mainha indignada.
- Como sempre, né mainha, só sobra pros mais fracos... – Disse maninha ainda com a bolsa nas costas.
- Verdade... Ah, vai guardar a bolsa e vem comigo e seu irmão lá na casa... – Disse mainha.
- Fazer? – Perguntou a mana.
- Vamos exigir nossa casa de volta, e todos os nossos direitos...
Fomos de mãos dadas os três juntos exigir nossa casa de volta. Como mainha sempre diz, a união faz a força. E nós estávamos muito unidos. O tempo estava fechado, como a porta da casa que mainha havia deixado escancarada quando saímos. Ficamos os três ali por uns instantes olhando a casa, ouvindo seu pedido de socorro. O padrasto andava dizendo por aí que havia reformado ela todinha, mas na verdade a casa tava toda deformada, com um monte de emendas mal feitas e cortes absurdos. O jardim totalmente destruído, o rio secou. Também diminuíram o teto, tava cheio de goteiras. A casa chorava, e suas lágrimas foram usadas como pintura verde amarela que encobria toda a podridão dos ratos. Parecia uma casa velha e cheia sujeira ao redor dela. Quando a gente morava lá mainha limpava todo santo dia, mas o padrasto era muito imundo demais, tava dando até ratos e dos grandes. Mainha fuçou a bolsa e achou a antiga chave estrela que guardava na esperança de usá-la pra ter a casa de volta. Estava pronta pra abrir a porta, quando ouvimos a voz insuportável do vampiro sangue suga.
- Nem adianta tentar... Troquei a fechadura! – Disse o padrasto nos assustando com sua chegada.
- É muito atrevimento, mesmo... Acha mesmo que vai ficar com a casa, né? Mas tá muito enganado... Eu e o pai dos meus filhos construímos essa casa e agora vem você e nos expulsa dela e acha que vai ficar por isso mesmo...
- Querida, assim é o jogo! Uns perdem, outros ganham... – Disse com aquela voz insuportavelmente má.
- Você tá muito enganado se acha que vai ficar por isso mesmo... Maldita hora que confiei em você... Seu traidor canalha! – Dizia mainha arrependida e revoltada.
- Se você veio até aqui na esperança de voltar pra casa, perdeu seu tempo... – Agora quem dá as ordens aqui sou eu. – Dizia o bandido.
Enquanto ele falava a porta da casa se abriu e um adolescente espinhento saiu de lá todo vestido de verde e segurando um enorme pato amarelo como se fosse seu brinquedinho preferido.
- Veja mainha... O pato... – Disse eu ao ver o mauricinho da escola abrindo a porta de nossa casa como se fosse dono.
- Foi meu pai que me deu de presente... – Disse todo cheio de si.
- Aposto que você comprou com o dinheiro da nossa conta, não foi? – Perguntou mainha enfurecida.
- Que importa?... – Disse o padrasto do mal.
- Ah, importa e muito! Quero saber... Diz aí, quem foi que pagou o pato? – Perguntou mainha sem se intimidar.
- Isso não é mais da sua conta? – Respondeu dando as costas pra mainha.
- É da minha conta sim... Eu e as crianças fomos tirados de nossa casa e estamos comendo o pão que o diabo amassou... – Disse mainha revoltada mesmo.
- Quer saber? Tô pouco me lixando pra você e seus filhos malcriados... – Disse ele voltando-se para mainha e pra nós.
- Não fale assim da gente, não! Seu aproveitador... – Disse maninha tentando defender a gente.
- É! Não fale assim não.... Senão eu vou chamar painho pra vim tirar você da nossa casa... – Disse com raiva e me sentindo valente igual a painho.
- Pode chamar quem vocês quiserem, o papa, o presidente, até o exército... Eu não saio! A casa pode cair na minha cabeça, mas eu não saio! Tão ouvindo? – Disse numa teimosia maligna.
- Isso é o que veremos! Se pensa que eu e as crianças vamos pagar por esse pato tá muito enganado... – Disse mainha enfrentando ele.
- Não é o que veremos, é o que já estamos vendo, querida! – Disse debochando de mainha e da gente.
- Não pense que isso acabou.... A luta tá só começando! – Disse mainha firme e decidida.
- Tchau, querida! Ah, e leve esses malcriados juntos... – Disse o padrasto dando as costas e entrando na casa.
- Quén, quén, qué... – Fazia o mauricinho brincando com o pato tirando onda com a nossa cara antes de voltar a entrar na casa, me lembrando a música de Gilberto Gil.
- A alegria de vocês vai durar pouco! Isso não vai terminar assim! – Disse mainha, segurando a nossa mão forte ...
Foi naquele dia que entendi que o pato, às vezes, é um brinquedo do mal.





CONTO: VOZES DO ALÉM



VOZES DO ALÉM


Ellen Oliveira

- O que é que tá acontecendo, hein José? – Perguntei sentado no chão, atrás de José que havia me chamado para ajudar ele a expulsar o padrasto da casa.
- Peraí, Luizinho... Tô ouvindo... Te conto tudinho já... – Disse José com ouvido atrás da porta do escritório, onde o padrasto estava reunido conversando com seus três amigos todos suspeitos.
- Não se esqueça que foi você me chamou pra te ajudar a tirar o padrasto da casa... Eu quero ajudar...
- Eu sei... Deixa eu ouvir o que esse vampiro tanto fala com seus comparsas... Pra depois a gente ver o que faz...
-  Tá certo! E vocês se preparem pra defender a casa... – Disse a meus amigos imaginários que ficavam só falando no meu ouvido “Vamos salvar a casa, Luizinho”, “Vamos salvar o José, Luizinho”...
- Com quem você tá falando, Luizinho? – Perguntou José ao notar que eu ouvia vozes do além...
- Com meus amigos que vieram junto comigo pra nos ajudar a defender a casa... – Disse explicando baixinho ao José.
- Que amigos? – Perguntou José sem entender direito.
- Meus amigos imaginários... – Expliquei mostrando o nada pra ele, que olhava sem entender muito bem.
- Ah... Entendi... Tá bem... Agora fique aí atrás de mim que você entra já... – Disse ele colocando o polegar esquerdo nos lábios, e encostando o ouvido esquerdo na porta onde era planejado o golpe maligno contra a casa.
- O que ele tá dizendo? – Perguntei interessado.
- Você não vai acreditar? – Disse José assustado.
- O que foi? Ele disse o que? – Quis saber.
- Ele disse que tem uma tal de Cris Marinho e ele tá amando... Quer colocar ela na casa...
- Que Crise Marinho é essa? – Perguntei numa curiosidade imensa.
- Não é Crise, é Cris... – Explicou o inocente José.
- Ah... E quem é essa que eu não conheci... – Disse fuçando a memória dos meus oito anos...
- Sei lá... Deve ser alguma cúmplice dele... – Falou o José, também queria entender a verdadeira face dela.
- Cumplice de quê? – Perguntei querendo entender a situação.
- Não sei... mais acho que é um plano dele... espere... – Disse voltando os ouvidos pra porta fechada.
- Ele tá dizendo mais o quê? – Perguntei insistente.
- Eita! – Disse José num espanto.
- O que foi? – Perguntei num espanto maior ainda.
- Ele disse que vai cortar as despesas da casa... Vai diminuir a comida da gente... – Disse com voz enfraquecida.
- Que malvado! Quer que vocês morram de fome... – Disse indignado.
- E ele tá dizendo mais, Luís...
- O que ele disse? – Quis saber.
- Eita poxa! – Disse com a voz cheia de temor.
- O que foi? Diga logo... – Perguntei revoltado.
- Ele tá dizendo que vai cortar o plano de saúde e vai economizar com gastos escolares... – Disse pra aumentar minha raiva.
- Caramba! Ele quer que vocês fiquem doentes e sem estudar... Esse padrasto é muito mau mesmo... – Disse com uma raiva daquelas.
- Peraí... Ele ainda tá falando mais coisas... – Disse o José atento à porta.
- O que ele tá falando ainda, hein? – Disse numa fúria gigante.
- Ele disse que vai convencer mainha a vender o carro... – Disse o José já com a voz quase baixa.
- Eita! – Disse imaginando a perda.
- E ele tá perguntando pros amigos dele como é que faz pra tirar o nome de mainha da conta conjunta do banco... – Disse o José com cara de medo.
- Por que será que ele quer fazer isso tudo, hein?... – Perguntei revoltado.
- Ele tá dizendo que ela gasta muito dinheiro com as crianças... – Disse o José, todo tristinho.
- Não fique triste, José... Nós não vamos deixar isso acontecer... – Respondi tentando consolá-lo.
- Nós quem, Luizinho? – Perguntou ainda triste.
- Eu e meus amigos guerreiros... – Respondi confiante.
- Ah, seus amigos imaginários, né? – Perguntou com a auto estima baixa.
- Sim... Mas eles são reais... – Disse tentando animá-lo.
- Se você diz... – Disse tentando se apegar a minha promessa.
- Vamos atacar agora? – Perguntei já sentindo a força tomar conta de mim.
- Peraí... Deixe ver o que eles tão fazendo... – Disse o José, me preparando...
- Veja e me diga... – Disse na expectativa pra agir.
- Ele tá dizendo que vai colocar a gente pra trabalhar... Disse que a gente reclama demais... Que somos vagabundinhos... – Disse chorando.
- Não chore não, José! Eu tô aqui pra defender você... Vamos expulsar o padrasto da casa... – Disse me levantando do chão como um gigante, e dando as ordens aos guerreiros imaginários. – Vamos guerreiros! Vamos defender a casa! Atacaaaarrrr... – Disse invadindo o escritório e assustando o padrasto e seus amigos.
- O que é isso! Que baderna é essa! – Disse o padrasto se achando o dono da cocada preta.
- Vá embora dessa casa agora! – Ordenei com toda a coragem do mundo. Era um Davi contra o Golias.
- Quem você pensa que é seu moleque atrevido... – Disse o grandalhão se levantando contra mim...
- Caia fora agora, seu vampiro! – Disse sem me deixar intimidar...
- Quem você pensa que é pra falar assim comigo? – Disse batendo com força as mãos na mesa.
- O José me chamou pra defender a casa! Não vou deixar você executar seus planos do mal... – Disse ameaçando-o.
- Deixa de falar besteira! Quem te chamou na conversa? – Falou ele tentando me descartar dos assuntos da casa.
- Já disse! Foi o José que me chamou e fique sabendo que eu não tô sozinho... – Disse confiando no meu exército de guerreiros imaginários.
- Como assim? – Disse ele olhando assustado para porta, como que procurando mais alguém.
- Eu trouxe os guerreiros comigo... – Disse com voz de ameaça.
- Que guerreiro... Só tô vendo o José aí atrás, aliás vamos ter uma conversinha séria viu mocinho! – Disse ele num tom de ameaça assustador para o José.
- Ele tá falando dos amigos imaginários dele... – Disse o José com cara de choro e temendo o vampiro altão.
- Ah, amigos imaginários! Não tô dizendo que esse garoto é maluco... Na certa não bate bem das ideias... – Disse aos seus amigos e ficaram os quatro zombando de mim.
- Vai contar sua mãe... Que deve ser uma vadia...- Disse um dos amigos com cara de machão.
- Respeite minha mãe, seu cara de Cunhão... – Disse com uma raiva de leão.
- Garoto engraçado! – Disse o amigo tucano dele, que só sabia debochar da gente...
- Cala boca seu cara de tucano sorridente!
- Ô garoto! Você não pode falar assim com a gente, não! – Defendeu o amigo que se acha todo importante só porque é um juiz de merda...
- Eu falo como eu quiser, seu justiceiro do mau... – Disse sem nenhum pinguinho de medo.
- Cala a boca você seu pirralho malcriado... Continuou o juiz com seu bla,bla,bla do cão...
- Cala a boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu... – Gritei o mais alto que pude em minha defesa.
- Para de pirraça, moleque! Meu amigo é do juizado dos menores e vai te prender... – Ameaçou o padrasto vampiro.
- Eu não tenho medo de você e nem de sua corja...  – Disse sem temer as ameaças.
- Luizinho, eles tão querendo prender você... – Falou o José temendo por mim.
- Não tema José... Eu e meus amigos vamos defender você e tirar o padrasto do mal dessa casa... – Falei tentando ser mais forte que eles.
- José, desce pro porão... Tá de castigo! – Falou o padrasto.
- Ele não vai descer pra lugar nenhum... – Disse defendendo o José com meu pequeno corpo.
- Isso é o que veremos!... Me ajudem!...Segurem eles!... – Disse o padrasto aos seus amigos...
O cara de cunhão levou o José pro porão debaixo da casa, e o justiceiro do mal ficou me segurando, tentando me impedir de ajudar José, e o tucano sorridente achava tudo engraçado. Quanto mais eu lutava por minha liberdade, mais o grandão usava sua força sobre mim.... Usou uma das mãos para prender meus braços pelas minhas costas, e o outro braço pra apertar minha barriga que doía tanto como na época em que a fome apertava lá em casa. Queria acabar comigo, mas eu não ia deixar. Ouvia as vozes dos guerreiros me chamando. Com a força de um gigante consegui me libertar das garras do justiceiro maligno e segui a voz que me chamava e me salvava. Sai do aperto com o coração na mão pelo José, mas deixei a ameaça no ar:
- Eu volto! Me aguardem! Você e seus comparsas vão embora dessa casa com um quente e dois fervendo... – Disse seguindo as vozes imaginárias do além.


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