quinta-feira, 27 de julho de 2017

CONTO: A CASA CAIU!


A CASA CAIU!

Ellen Oliveira

- É hoje que a casa cai! – Dizia mainha da porta do barraco.
- Que foi mainha? – Perguntei levantando do colchão no qual havia deitado com a barriga pra baixo pra não sentir a fome. Desde que fui condenado injustamente pela morte de meu irmão José, aguardava os homens irem me buscar como quem esperasse a hora da morte.
- Não tá ouvindo o barulho? – Perguntou mainha, aumentando minha curiosidade. Por um momento pensei que era a polícia que ia me levar preso, temi e tremi.
- Tô ouvindo... – Disse ao ouvir o barulho, e perguntei: Tá vindo de onde, mainha? Será que é a polícia que veio me prender? – Perguntava já me acostumando àquela vida em que pobre é chamado de marginal e vive como que esperasse que a qualquer momento os homens do camburão batem na porta pra levar preso.
- Que polícia que nada, meu filho! O barulho vem da casa! Ela está cercada de manifestantes que estão revoltados com seu padrasto... – Disse mainha com cara séria.
- Eita mainha... Vou lá ver... – Disse numa carreira em direção à multidão. 
- Não Luizinho, volta aqui, menino... – Gritou mainha, mas fingi não ouvi.
Eita, era verdade mesmo o que mainha disse! Eu tava vendo com meus próprios olhos... A casa rodeada de gente gritando, cobrando, exigindo... Tantos cartazes! Tantas faixas! Uma multidão! Era gente do mundo inteiro! Gente que não acabava mais! O que será que eles querem, hein? Não sei... Tenho que descobrir... Mas, como? Já sei! Vou perguntar um por um...
- Ei, moça... Quem é você e tá cobrando o quê? – Perguntei a uma moça vestida com roupa do campo, e montada num lindo cavalo branco.
- Oi, menino! Eu sou Meirelles e tô aqui pra resolver um assunto do mistério da Fazenda...
- Um Mistério da Fazenda?
- Sim... Seu padrasto comprou uma fazenda no exterior e tá devendo um dinheirão que ele disse que pagou mas ninguém sabe onde foi parar a grana...
- Eita, isso é mistério mesmo, né? – Disse à moça, enquanto ouvia o cavalo dela relinchando como quem estivesse reclamando.
- É sim... Põe mistério nisso! – Respondeu, tentando acalmar o animal, e eu sai de perto pra não levar um coice.
- Professora? – Disse ao ver a professora da minha escola que estava junto com outros professores, e perguntei na maior curiosidade:  Tá aqui pra quê?
- Eu tô investigando o Mistério da Educação...
-Que mistério – Quis saber.
- Estamos aqui pra cobrar pelas reformas mal feitas que ele mandou fazer na escola...
- Eita! Aquela reforma foi misteriosa mesmo, viu! Eu não entendi nada... Então foi ele que mandou reformar a escola daquele jeito, foi? – Perguntei com mais raiva do padrasto.
- Foi sim, menino! Agora ele tem que pagar, né? – Disse a professora com cara exigente.
- Verdade! Tem que pagar mesmo porque a escola ficou foi pior... – Falei mesmo, e deixei ela com os outros professores que estavam contra as reformas.
- E você moço, tá cobrando o quê? – Perguntei a um homem sério, de óculos e com uma pasta cheia de livros, parecia professor também e era.
- Oi! Sou o professor Andes e estou aqui para cobrar pelos cortes que ele mandou a gangster dele fazer nas Universidades... Uma verdadeira barbaridade! Precisa ver!
-Eita... Cortaram muita coisa nas Universidades, foi? – Perguntei assustado.
- Sim... Foi um verdadeiro vandalismo no patrimônio público... Isso não vai ficar assim... Ele tem que pagar! – Disse o homem sério e com cara de revolta.
- Verdade, professor Andes! Ele tem que pagar mesmo! – Disse contaminado pela revolta do professor e ele continuou:
- É isso, aí! Não aos cortes! – Disse o tal de Andes com cara mais séria que eu já vi, saí bem sério dali.
- Oi, jovens! Vocês estão cobrando o quê? – Perguntei há um grupo de estudantes universitários que protestavam forte.
- Oi, menino! Somos do FIES e estamos aqui pra cobrar as dívidas que seu padrasto fez e não pagou? Acredita que ficamos sem ter como estudar porque ele mandou reduzir o teto? – Disse uma estudante indignada.
- E quanto é que ele tá devendo? – Perguntei na inocência.
- Xiii, muita grana! Pra você ter uma ideia, essa dívida dava pra bancar os estudos de muita gente... – Respondeu a moça.
- Caramba! Ele tem que pagar então, né?
- Com certeza! Tem que pagar sim! – Disse ela e foi juntar-se ao grupo que levantava vários cartazes. Eu continuei minha investigação para descobri o que o padrasto andou aprontando.
- E você, tá fazendo o quê aqui? – Perguntei ao ver Dona Zefinha da feira, junto com outros feirantes.
- Oi, meu fio. Tô aqui pra resolver o mistério da agricultura... – Disse a senhora com a pele toda enrugada.
- Que mistério é esse? - Perguntei interessado.
- É que acreditamos que seu padrasto é o responsável por mandar acabar com a agricultura familiar... – Dizia com a voz trêmula.
- Foi ele sim! – Disse firme e com raiva.
- Como você sabe, menino? – Perguntou a velhinha.
- Eu sei porque eu vi ele destruindo a horta que painho e mainha haviam construído... – Respondi firme confiando na memória.
- Hum... Isso faz sentido. Tudo indica que foi ele mesmo, então... – Disse a idosa pensando.
- Foi ele sim pode mandar ele pagar, viu? Por causa dele a feira tá mais feia... – Disse revoltado.
- É verdade! E isso não pode acontecer! – Disse Dona Zefinha.
- Não pode mesmo não... – Disse deixando ela, ao lembrar que não tinha comido nada naquele dia.
- E você, moço? – Perguntei a um homem que lembrava painho, com a cara e vestes de trabalhador rural. Todo suado, corpo surrado...
- Meu nome é José! – Disse ele, e na hora lembrei de meu irmão José, morto pelo padrasto e a corja dele. O moço continuou: - Eu tô aqui pra resolver um assunto de Mistério do Trabalho... – Disse ele com o semblante cansado.
- Mistério do Trabalho? – Perguntei diante do mistério.
- Sim... Seu padrasto contratou vários homens, mulheres e, até crianças, pra trabalharem como escravos e se recusa a pagar nossos direitos trabalhistas... – Disse ele com cara de dor.
- Eita! Que mistério horrível! – Disse meio doloroso não sei se por lembrar de meu irmão ou do cidadão a minha frente.
- Isso é uma humilhação terrível, menino! É falta de humanidade... – Disse o trabalhador engolindo o choro... - A dor foi demais pra mim e sai dali impotente.
- Oi, vocês, aí! Querem o quê? – Perguntei a um grupo de manifestantes sujos e suados.
- Somos do MST... Estamos aqui pra cobrar o PAC e o Minha casa, minha vida que seu padrasto tirou da gente...
- Que malvadeza! – Disse indignado, lembrando que ele fez o mesmo comigo e mainha, tirando a gente de nossa casa.
- É sim, menino! Muita malvadeza deixar a gente sem ter onde morar... – Disse o pai da família voltando pra luta.
- Oi, senhor! E você tá cobrando o quê? – Disse a um homem gordo com cara de rico.
- Eu sou do Banco Nacional e tô aqui pra cobrar uma bolsa de dinheiro que o seu padrasto pediu emprestado pra fazer reformas, comprar carros, coxinhas, e não pagou... – Disse ele com uma pasta cheia de papéis na mão.
-  Eita! É muito dinheiro, é? – Perguntei cheio de temor.
- É sim... Muito dinheiro mesmo... Ficou um rombo enorme na conta, que tá no vermelho... É capaz de precisar vender a casa pra pagar! – Disse o
Eita! Não... Ele não pode vender a casa não! – Disse saindo de lá com medo e raiva, e até vê os homens do posto de gasolina...
- O que vocês querem? – Perguntei.
- Viemos cobrar o dinheiro que seu pai nos deve. Ele encheu o tanque do carro dele e de todos os amigos dele e deu um cheque sem fundo...
- Eita! E agora?
- Agora nós queremos receber! – Disse um dos homens. Ao deixá-los lá, me esbarrei com uma mulher vestida de verde amarelo e com um avental.
- Oi, dona! Quem é a senhora e tá cobrando o quê? Perguntei me refazendo da batida.
- Oi, querido! Eu sou da venda da praça e tô aqui pra cobrar umas coxinhas que seu padrasto comprou e ainda tá devendo... – Disse ela com a cara lambida de óleo.
- E quantas coxinhas foi que ele comprou? Perguntei faminto.
- Vixe, meu filho! Muitas, viu... Coxinha suficiente pra manter ele e os amigos dele de pé... – Disse ela.
- Devem ter sido muitas, então... – Pensei sentindo a fome apertar.
- Se foi! – Disse a senhora olhando pro lado direito, e eu saí pelo lado esquerdo.
- Oi, e você? Veio fazer o quê? – Perguntei a umas aeromoças lindas.
- Oi, menino! Somos do Aeroporto e estamos aqui pra cobrar os gastos com lanches que seu padrasto fez com os amigos dele em viagens ao exterior... – Disse elas com poses de modelo chiques.
- Eles gastaram muito foi? – Perguntei sem fazer ideia.
- Muitíssimo...Se brincar o que eles gastaram dá pra uma refeição de uma cidade inteira... – Disse ela naturalmente me assustando.
- Eita! E o que tanto eles comeram? – Perguntei querendo entender as contas.
- Tantas coisas, tudo do bom e do melhor... Umas 120 Nutella, 500 sorvetes caríssimos, tortas de chocolate... – Enquanto ele falava a boca e os olhos enchiam de água, mas a barriga estava seca e doía ainda mais.  
- E você aí? Tá aqui pra cobrar o quê?
- Oi, garoto! Sou da corporativa e vim cobrar umas dívidas altíssimas que seu padrasto fez no cartão de crédito...
- Nossa! E essa dívida é muito grande é...?
- É sim! É uma dívida enorme... – Eu já não aguentava mais ouvir tantos mistérios e cobranças... Minha barriga roncava e a cabeça girava, girava... Olhava a multidão gritando, olhava a casa, sentia que ia cair... Até que ouvi uma voz me chamando...
- Luizinho! Ô, Luizinho! Cadê você, menino? – Gritava a voz de mainha aflita me chamando! Fechei e abri os olhos. Já não rodava. Corri em direção ao barraco para atendê-la.
-Oi, Mainha! Tô aqui! Já voltei! – Disse ao chegar no barraco e ver mainha com o celular na mão toda emocionada...
- Que foi, mainha? – Perguntei todo eufórico.
- Filho, vem ver o vídeo que seu pai fez pra gente...
- Um vídeo de painho, mainha?
- Sim meu filho... Um vídeo de seu pai... Dizendo que vai voltar...
- Deixa eu ver, mainha! – Disse tomando o celular da mão de mainha num impulso não sei se de fé, esperança ou felicidade. Ouvi com atenção o que painho dizia com a voz da saudade:

“Companheira e companheiro,
primeiro gostaria de dizer que estou morrendo de saudades dos meus amores e que a vida longe de vocês é como um imenso sertão deserto e sem chuva. Nada nasce, nada cresce, nada vive. Também quero esclarecer que é mentira as fofocas que andam espalhando por aí ao meu respeito, dizem que tô com câncer e que ainda estou doente. Não acreditem nessa baboseira. Isso é mentira criada por pessoas que querem que vocês duvidem da minha volta pra casa. Eu estive doente, sim, mas graças ao bom Deus já estou curado e com uma saúde de ferro e pronto pra qualquer duelo.”

- Ói, mainha! Ouviu? Painho tá curado! Ele vai voltar pra casa! – Disse eufórico a mainha que ouvia tudo chorando de felicidade.
- É sim, meu amor! Vamos terminar de ouvir o vídeo! – Disse ela secando as lágrimas com um lencinho velho.

“... Fiquei sabendo da tentativa de criminalizar meu amado e querido filho. Quero que saibam que o Luizinho é totalmente inocente de todas essas acusações falsas e sem nenhuma prova, e diferente do que seu padrasto e os amigos dele planejaram, o José não morreu.” – Disse pra nossa surpresa e nosso espanto, e continuou:

 “Luizinho, quando você saiu correndo do imóvel e sua mãe caiu em depressão, a SAMU chegou a tempo e conseguiu levar seu irmão pro hospital. Eu fiquei sabendo do ocorrido e fui socorrê-lo, para salvá-lo eu doei uma parte do meu coração pra ele, e por um milagre divino ainda está vivo. O José está na UTI, em observação e com fé em Deus, em breve voltará para a casa de onde nunca deveria ter saído. Foi com muita tristeza que soube do Golpe que o padrasto deu pra tomar a nossa casa e na baderna que ele e seus amigos andaram aprontando. Prometo que quando voltar irei recuperar nossa casa e colocar as coisas em ordem, e nós voltaremos a ser uma família feliz.”
Depois painho finalizou o vídeo cantando todo feliz com a sanfona dele a música de Gonzaga e Gonzaguinha que era bem assim “Minha vida é andar por esse país, pra ver se um dia descanso feliz...” Dei um pulo de felicidade e o coração saltitante de saudade era só alegria:
- Êba! Êba! Painho vai voltar! Painho vai voltar! – Sai correndo feito louco e feliz da vida anunciando aos quatro cantos a volta de painho. Todos ouviram meus gritos de fé e esperança. Os cobradores pareciam mais confiantes e animados, porém lá de dentro da casa o padrasto e seus amigos não gostaram nadinha de saber da novidade. Começaram a gritar com tanto ódio e tanta raiva, que de repente algo estrondoso aconteceu, e um barulho de fim do mundo anunciou a queda da casa. Todos começaram a gritar “a casa caiu”, e eu me acabando de rir ao ver a casa desabar na cabeça do padrasto e seus amigos...
- Oxente! A casa caiu e você fica rindo, menino? – Veio me perguntar a tal da Cris Marinho numa exagerada crise de choro!

- Tudo bem! Não tem problema... Quando painho voltar ele levanta a casa de novo! – Disse em gargalhadas e sentindo o gosto doce da vingança, e a felicidade de saber que meu herói em breve voltaria e o José viria junto com ele. “A casa caiu! Ô coisa boa! Bem feito!” Pensava comigo vingando a barriga ainda estava vazia.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

CONTO: MARGINAIS



MARGINAIS

Ellen Oliveira

-E agora, José? Temos que fazer alguma coisa pra tirar o padrasto da casa. – Dizia o Luizinho a mim na hora recreio, lembrando do Golpe que o padrasto havia dado em minha para tomar posse de nossa casa e nos expulsar de lá, jogando-nos à margem da seca.
- Mas o quê? – Perguntei, enquanto pensava.
- Não sei... – Respondeu o Luizinho também pensando, enquanto, sentado no banco, balançava a perna esquerda.
- Por que não fazemos uma manifestação? – Disse o Paulo Leminsk enquanto escrevia um poema num guardanapo sujo do sanduíche que havia comido.
- Como se faz uma manifestação? – Quis saber.
- Várias pessoas se juntam e fazem protestos num lugar pra chamar a atenção... – Explicava o Paulo, na maior naturalidade enquanto escrevia.
- Hum, poderíamos fazer isso na porta da casa... – Disse tomado pela ideia.
- Massa seria a gente fazer também uma arte de protesto... – Disse Frida Kahlo, enquanto desenhava em seu caderno de desenho.
- E como é uma arte de protesto? – Perguntei curioso...
 - A gente pincha um muro ou faz um grafite pra dar um recado pra alguém... Mas tinha que ser alguma coisa bem forte pra incomodar mesmo, entende? – Explicou a menina, enquanto eu notava as flores em seu cabelo e as suas sobrancelhas grossas.
- A gente podia fazer uma arte protesto pra dá um recado pro padrasto... – Disse eu crendo que estava pensando grande.
- Que recado vocês querem dar? – Perguntou o Paulo.
- Eu queria dizer pra ele ir embora da casa e deixar a gente em paz... – Disse com cara de luta.
- Hum... que tal: Fora da casa? ou, Fora golpista? – Sugeriu o poeta.
- Parece bom... – Pensei e disse.
- Temos que planejar bem... – Disse Paulo.
- Já sei!... Cheguem mais... – Disse a Frida e nós nos reunimos num abraço coletivo em prol da causa.
Terminado recreio voltamos pra sala de aula. Era pra ser aula de artes,
- Crianças peguem o caderno... – Ordenou a professora.
- Caderno de desenho, professora? – Perguntou a Frida...
- Não! Esqueceu que não teremos mais aula de artes? – Disse a professora.
- Poxa! – Falou Frida com cara de tristeza.
- Peguem os cadernos de matemática... – Disse a professora, enquanto passava umas contas no quadro.
Enquanto fazíamos os cálculos de matemática, calculávamos o plano do protesto através da arte. Deixamos a escola com aquele plano fixo na cabeça. Tínhamos uma causa: expulsar o padrasto da casa. Só assim painho poderia voltar com mainha e nós seríamos de novo uma família feliz. Voltamos pro barraco e aguardamos a poeira abaixar, o sol se pôr, e todos dormirem.
No barraco silencioso, só se ouvia os grilos. Até que uma voz do além nos desperta. Era Paulo e Frida que nos chamavam para fazer a arte do protesto. Saímos na ponta dos pés, e fomos em direção à casa. Chegando lá, ficamos assustado com a visão que ela tinha à noite. Parecia uma casa mal-assombrada, à beira de um precipício que era aquela seca que já foi um rio, e rodeada de uma floresta morta e sem cor. Ainda não tinha visto a casa daquele jeito, parecia cena de terror.
Enquanto achavam que estávamos dormindo, nós agíamos na noite calada. A lua e as estrelas nos guiavam com a poesia da madrugada. Já dizia o ditado, Deus ajuda quem cedo madruga. Já passava da meia noite, e nós tínhamos a arte como açoite para usar contra o mal, antes que o dia amanheça, com a esperança de um novo final. Na calada da noite, e no silêncio das vozes, fazíamos da arte nosso protesto.
Quando o sol nascia, meio tímido, nós distante espiávamos e esperávamos ansiosos a recepção do nosso protesto. Era por volta das sete da manhã, e nós ainda lá em frente à casa, escondidos só observando, esperando, até que a porta se abre e o padrasto sai com a cara de sangue suga dele. Nossos olhos fixos nos olhos dele que ignoravam a gente. A melhor parte da arte foi ver a cara dele quando leu “Fora golpista” pinchado e desenhado na fachada inteira da casa. Quase infartou! De onde estávamos, ouvimos o grito de ódio dele:
- Marginaaaaaais!
Demos uma carreira e nos juntamos ao grupo de manifestantes da MST que passavam por ali com faixas de luta que diziam “Devolvam nossas terras”. Naquele momento não falamos nada, pois fizemos da nossa arte, na fachada da casa, a capa de nosso grito de protesto. Seguimos a multidão.


terça-feira, 25 de julho de 2017

CONTO: A FEIRA MAIS FEIA


A FEIRA MAIS FEIA

Ellen Oliveira

- Acorda, filho! – Dizia a voz de mainha distante, que jurava que era um sonho, e, por isso, resistir na cama, mas ela continuou a insistir, então respondi:
- Ah, mainha! Deixa eu dormir ainda tá cedo pra ir pra aula... – Disse ao ver que no relógio velho da parede que não passava das quatro da madrugada...
- Filho, sei que você tá cansado mas tem que levantar... venha... Você e seus irmãos não vão à aula hoje...  – Disse mainha tentando me tirar da cama.
- Poxa, mainha! – Resmunguei sonolento.
- Temos que ir à feira, filho...  – Disse mainha já pronta pro trabalho.
- Ir à feira? – Perguntei com cara de quem ainda dormia.
- Sim... Esqueceu que não estamos mais na nossa casa... Lá tinha uma hortinha familiar que eu ajudei seu pai a construir... Agora não temos mais nem direito a isso... – Disse mainha com a voz de inconformada.
- A gente vai fazer compras é? – Perguntei lembrando que tinha ido dormir com fome porque não tinha nada pra comer.
- Não, filho... Vamos trabalhar...  – Disse mainha já dando a real.
- Trabalhar, mainha? – Perguntei assustado.
- Sim, meu amor... Vou ter que voltar a vender na barraca e você e seus irmãos, infelizmente, até as coisas melhorarem, vão ter que me ajudar pegando carrego mais seus irmãos, como mainha fazia mais seus tios quando éramos crianças... – Disse mainha relembrando um passado triste.
- Ah, mainha... Por quê? Eu não quero pegar carrego não.... Dói os braços... Melhor ir pra escola...
- Não podemos, meu amor! Sem bolsa família e com o salário atrasado, vamos ter que nos virar senão não vamos conseguir sair desse barraco... – Disse mainha falando do barraco que estávamos morando à beira da seca, que um dia foi um rio.
Levantei emburrado da cama e empurrado pro trabalho. Não quis nem comer, queria fazer greve de fome, o que não seria difícil com a faltura que tava lá em casa, digo no nosso barraco. Em pensar que a gente já foi tão feliz, teve carro, horta, uma boa casa e painho lá cuidando da gente, nos dando comida, boa educação, amor e carinho. Pena que ele teve que ir pro Sul tratar o câncer, mas um dia ele volta e bem fortão pra tirar o padrasto lá de casa. Aí sim a nossa vida vai voltar a ser feliz como antes. Me apegava aquela esperança, numa doce e linda inocência de criança. Mas a realidade era cruel e cheia de temor. Mainha nos chamou lá da rua, saímos os três com os carrinhos de mão velhos, antigos, do tempo que meus tios usavam pra trabalhar na infância, que o padrasto e o juiz do mal deixaram a gente levar da nossa casa.
O tempo estava horrível, chovia sem cessar. A rua toda enlameada, mas mainha determinada a ir trabalhar e a gente foi junto com ela. Caminhávamos pelo lado esquerdo da rua quando à direita passou um desfile de carros luxuosos e adivinhe quem eram? O padrasto e seu filho mauricinho, espinhento com seu pato, o cara de bosta e seu filho Hitler, o cara de tucano sorridente com seu filho Aecinho, justiceiro do mal e seu filho Serginho, e o cara de cunhã com seu filho cara de tarado. O vampirão foi o primeiro a jogar o carro na poça d’água pra tentar sujar mainha de lama, depois os amigos deles fizeram o mesmo, mas mainha muito esperta e ágil conseguiu driblar as manobras sujas dos homens maus. Com dificuldades chegamos à feira, que por ser ao ar livre, e no meio da rua, estava toda enlameada. Mainha foi pra barraca dela, arrumar as frutas e os legumes pra venda, que um homem trouxe num caixote, ela me deu uma maçã argentina pra comer e depois eu me juntei ao grupo de crianças à esquerda, que aguardavam os clientes.
-  Isso tá muito errado, sabiam? – Dizia uma menina negra que estava à nossa frente.
- O que que tá errado? – Perguntei a menina que parecia mais alta que eu.
- Fazerem a gente trabalhar que nem escravos... – Disse ela com a mesma voz de revolta que mainha faz.
- Tão fazendo isso é? – Perguntei, inocente.
- Claro, guri... Não tá vendo? – Perguntou ela com voz de briga, e eu logo respondi no susto:
- Tô! Tô vendo, sim! Como é seu nome? – Perguntei curioso.
- Tereza de Benguela. – Disse ela bem séria.
- Tereza Banguela... – Perguntei achando ela engraçada.
- Não... Tereza de Benguela. – Respondeu firme e séria.
- Ah, tá... Entendi. -  Respondi segurando a graça.
- E o seu? – Perguntou olhando pra mim.
- José... – Respondi com simplicidade.
- José de que? José piolho? – Disse ela brincando, me deixando sem graça. Ia responder mas a outra menina entro na conversa chamando a atenção...
- Tereza, viu só? – Disse outra menina negrinha...
- Não, o quê? Perguntou ela, e eu só olhava tentando ver.
- O guarda bateu na guria... Aquele cavalão... A menina deve ter o quê? Oito anos? – Disse com a voz de revolta, a menina que pra mim ainda era anônima, e continuou: - Que absurdo! Aposto que bateu nela só porque é menina e neguinha... – Falou a menina em pé com uma cara de raiva que eu nunca tinha visto antes.
- O que vamos fazer? – Perguntou Tereza, furiosa.
- Não sei, Tereza... Mas deveríamos fazer alguma coisa um dia... Pra acabar com essas coisas... – Disse Antonieta pensativa.
- Tipo o quê? – Perguntou Tereza.
- Não sei... Mas uma manifestação, ou uma revolução, aqui na feira... – Disse Tereza olhando pro além.
- E isso ia resolver? – Perguntou Antonieta, ainda pensando.
- Talvez... Mas temos que tentar... O que mais poderíamos fazer? – Disse Tereza perguntando.
- Não sei... Mas penso que se um dia fosse política ou escritora poderia fazer muito mais coisa que uma manifestação, ou uma revolução... – Disse Antonieta caminhando de  trás pra frente.
- Ah, seria bom... – Disse Tereza.
- Eu queria fazer alguma coisa pra tirar o padrasto lá da casa... – Disse eu, sentindo que falava por todos os meus irmãos.
- Por que ele é um homem ruim? Não vai me dizer que bate em você? – Perguntou a Tereza.
- Ele bateu em mainha uma vez... traiu ela... e ainda expulsou a gente de nossa casa... – Disse triste.
- Nossa, que monstro! Você denunciou quando ele bateu em sua mãe?– Perguntou outra menina chamada Maria da penha, entrando na conversa.
- Não... Não sabia como... Mas eu briguei com ele... – Disse fazendo-me de guerreiro como painho.
- Tinha que ter denunciado... Era só ligar 180... – Dizia a Maria me ensinando a denunciar o Padrasto.
- Eu não sabia... – Disse envergonhado entre as meninas.
- Agora você já sabe! – Disse Maria firme pra mim.
- Tá certo... Da próxima vez eu denuncio... – Prometi.
- Ai, gente tem tanta coisa errada nesse país...– Disse a Antonieta olhando pro céu nublado.
- Nem me fale, Antonieta! Nem me fale... Queria poder fazer algo pra trazer mais igualdade e respeito pra nós negros, os pobres...  Dá uma revolta, às vezes. – Disse a Tereza com cara de luta. 
- Eu queria que painho voltasse pra casa... – Disse Luizinho que a pouco havia chegado de um carrego todo cansado, tadinho.
- Eu também, mano! Pra ele colocar o padrasto pra correr... – Disse numa raiva só.
Ficaríamos ali a manhã inteira falando de sonhos, de lutas, mas a feira começava a encher e era hora de ir à labuta e abandonar, por enquanto, os planos pro futuro. Nessa ladainha, carrego vai, carrego vem, e o tempo passou nesse vai e vem dos carrinhos. Ia dar cinco da tarde, estávamos todos mortinhos da Silva de tanto trabalhar. Mainha nos chamou pra irmos pra casa, digo, pro barraco na seca.
- Crianças, vamos? – Chamou mainha.
- Graças a Deus! Disse me levantando da calçada e pegando o carrinho, e dei tchau às três meninas, que pareciam mais as meninas super poderosas.
- Quem são elas, filho? – Perguntou mainha ao ver as meninas trabalhadoras.
- A da frente é Antonieta de Barros, a do meio é Maria da Penha, e a da esquerda é Tereza de Benguela.  – Respondi apontando pra elas.
- Parecem legais. – Disse mainha olhando pra elas com carinho.
- São sim, mainhas. Elas querem mudar o mundo... – Disse eu com voz de esperança.
- Nossa, isso é bom! Precisamos de mulheres que pensem como essas meninas... – Disse mainha confiante.
- Verdade, mainha! – Disse, e perguntei logo em seguida: Mainha, a senhora vendeu muito?
- Mais ou menos filho... Trouxe umas coisas que sobraram pra gente... – Disse mainha com os restos da feira.
- Que bom! Tome o dinheiro que a gente conseguiu com os carregos... – Disse entregando a ela a mochila com os trocados.
- Dá aqui, filho! Vai dar pra comprar cadernos, lápis e sandálias novas pra vocês irem pra escola... O resto a gente vai se virando como pode!
- Tá certo, mainha.
- Dá uma dor no coração por vocês perderem aula pra trabalhar... Mas prometo que vou lutar pra resolver essa situação, e com fé em Deus vocês não vão mais precisar faltar aula pra trabalhar... Lugar de criança é na escola. – Disse mainha, nos abraçando e beijando na testa.
Enquanto voltávamos para casa tive uma visão que me entristeceu muito e me deixou cheio de temor. Puxei o braço esquerdo de mainha pra chamar a atenção dela:- Mainha, mainha...
- O que foi, meu filho? – Perguntou voltando-se pra mim.
- O que aquelas crianças estão fazendo ali no lixão... – Disse assustado ao ver crianças imundas catando coisas no lixão, ao lado da seca que um dia foi rio, e colocar dentro de carrinhos velhos.
- É meu filho... Aquela é a feira delas... Estão catando restos de comidas pra levar pra casa... – Disse mainha com cara de dor.
- Nossa, mainha! Que triste! – Disse na maior tristeza do mundo.
- Muito triste, mesmo, meu filho! É de dá dor no coração... – Disse mainha com cara de cansaço, tristeza e sofrimento.
- É a feira mais feia que eu já vi na minha vida, mainha! – Disse interpretando a cena.

- É sim, meu filho! É sim. – Disse mainha, e voltamos pra nossa realidade, pro nosso barraco, até Deus sabe lá quando.

CONTO: O JUIZ DOS MENORES


O JUIZ DOS MENORES

Ellen Oliveira

Era um dia de tempestade, havíamos ido visitar um imóvel que os amigos do padrasto haviam indicado. Queriam que nós morássemos lá. Ao chegar no local, fui o primeiro a entrar. O mal estava feito. José estirado no chão, morto de forma mais cruel e brutal possível, o coração havia sido arrancado e as paredes lavadas com o sangue inocente.  Chorei lágrimas de sangue pela injustiça que fizeram com o meu querido José.  Uma bolsa de dinheiro ensanguentada aberta como um ímã maldito, no meio o coração da vítima. Num impulso, a primeira coisa que veio em mente foi salvar o coração, achando que com isso salvaria o José.  Enquanto saia correndo daquela visita trágica ao local, mainha entrou e quase não sobreviveu àquele terrível Golpe, caiu em depressão. Eu e José éramos irmãos, unha e carne, o que era meu, era dele e o que era dele era meu. Nossa mãe, era só amor, ela nos acolhia com seu imenso coração de mãe. Bem diferente do padrasto que só tinha ódio no coração. Ele e seus amigos só viviam maltratando a gente. Não demorou muito, tanto fizeram que conseguiram me acusar injustamente e me levar ao julgamento dos homens grandes. Os três grandões vieram pra cima de mim querendo me prender
- Me soltem! Eu não sou bandido nem assassino pra ser levado pela polícia... me soltem! Me soltem! Eu não fiz nada! – Gritava e lutava, pois era inocente.
- Ele tem razão! Ele deve ser julgado por quem tem competência para julgá-lo... Ele deve ser julgado pelo juizado de menores... – Disse mainha, encontrando forças pra me defender.
- Mainha tem razão... Não é vocês que tem que me julgar, não... É o Juizado dos menores... – Disse eu na maior valentia dos guerreiros justos e inocentes.
Alguns dias se passaram até chegar o famoso julgamento. Digo famoso porque tava dando em tudo que era mídia Global que eu era culpado, bem antes mesmo de ser julgado. Até invadiram minha casa, me levaram forçado a um interrogatório sem nem ao menos me avisar, não deu tempo nem de vestir a roupa, fui de sunga e com a boca suja de pasta de dente.... Aquilo foi uma humilhação, e das grandes. Dá pra acreditar que gravaram até as minhas conversas? Até um desenho inocente que fiz pra mainha lembrar de mim e do José estavam usando como provas... Não caí em depressão porque eu era corinthianos e meu time tava ganhando. Às vezes, é uma torcida do nosso time que nos dá forças e ameniza a dor das coisas ruins da vida. Porque é aí que a gente entende que a vida é feita de perdas, mas de vitórias também. E ultimamente tinha muita gente me acusando, mas tinha muito mais gente torcendo, uma nação tricolor, o verdadeiro tripléx do amor.
Depois de dias de sofrimento e tortura, em que mal me deixaram falar, me defender da acusação de ter matado o José da forma mais vergonhosa e trágica, de ter pego a bolsa do dinheiro, e ter lavado o apartamento com sangue, e roubado o coração do irmão, chegou o grande dia do julgamento. E adivinhem... Era o tal juiz amigo do padrasto que eu havia enfrentado uns dias antes. Pronto! Era agora que ele ia se vingar de mim, pensei comigo mesmo.
- Luiz da Silva Junior, promete dizer a verdade, somente a verdade? – Perguntou o juiz antes de dar início ao julgamento.
- Eu prometo, seu juiz dos menores! E o senhor promete que vai ouvir minha verdade? – Respondi e perguntei, porque sou ousado mesmo.
- Atente somente a responder o que lhe for perguntado pelo advogado de acusação... Ok? Quem faz as perguntas é ele! – Disse achando que ia me calar.
- Grande novidade! – Respondi na cara dele.
- Silêncio! Tem certeza que está disposto a falar a verdade? As perguntas serão difíceis... – Disse tentando me intimidar.
- Eu não tenho medo da sua maldade! Eu só falo a verdade! – Respondi, e ele deu ordem para iniciar o julgamento como quem dava início a uma guerra.
- O que você foi fazer no imóvel e por quê?- Foi a primeira pergunta que o advogado acusador dez.
- A culpa é do padrasto e não minha... Ele não gostava de me ver na casa... Ele até deu um Golpe pra ficar com a nossa casa e tava destruindo ela todinha, dizendo que era uma tal de reforma... Ele até brigou comigo, ficou me apertando, e até mandou o juiz dos menores me prender... Tá lembrado? – Disse ao advogado me dirigindo ao juiz amigo do padrasto.
- Já disse, e repito, se atente a responder ao interrogatório... Afinal, quem está sendo julgado é você... – Falou o juiz, olhando pro lado direito do recinto.
- Vocês tão me condenando e não querem me deixar falar... Só querem que eu diga o que vocês querem ouvir... Assim não vale!  – Falei mesmo.
- Silêncio! Ordem no tribunal! – Dizia o juiz dos menores e, me ignorando, continuou: - Prossiga advogado de acusação!
- Vou repetir a pergunta: o que você estava fazendo no imóvel? – Perguntou o acusador.
- Eu fui acompanhar mainha, mas José... Os amigos do padrasto que indicou o móvel...  – Disse pensando que eles armaram aquela armadilha.
- É imóvel, não móvel... – Quis me corrigir, o doutor.
- É móvel sim... Porque ninguém sabe de quem é... E fica o tempo todo mudando de dono... – Falei mesmo, deixando eles sem graça.
- Enfim... Vamos aos fatos! Você matou o José, lavou o imóvel com o sangue dele, roubou a bolsa de dinheiro e o coração dele... – Acusava o advogado sem nenhuma prova.
- Mentira! Eu não fiz isso que vocês tão dizendo... Quero ver provar! – Disse revoltado com a acusação.
- E quem matou o José, então? – Perguntou o advogado.
- Não fui eu! – Respondi.
- Quem foi que lavou o imóvel com o sangue inocente? – Perguntou ele.
- Não fui eu! – Respondi mais uma vez.
- Quem foi que roubou a bolsa do dinheiro? – Perguntou ele.
- Não fui eu! – Respondi de novo.
- Se não foi você, então quem foi? – Perguntou ele com a maior cara cínica.
- Sei lá... pode ter sido o padrasto, ou os ratos, ou alguém pra me incriminar... – Disse sem fazer ideia da resposta.
- Você tem como provar isso? – Perguntou o advogado se achando esperto.
- E você tem como provar que fui eu? – Respondi perguntando mesmo.
- Já disse pra se atentar às perguntas! – Insistiu o juiz do mal.
- Só tô me defendendo... Cadê as provas? – Perguntei mesmo, pois não ia ficar calado enquanto me acusavam sem nenhuma prova.
- Silêncio! – Disse o juiz com o dedo direito nos lábios e piscando com o olho direito pra o padrasto e os amigos dele, depois deu ordem pra seguir com o julgamento.
- Mais uma pergunta: quem roubou o coração de José? – Perguntou o advogado, já sabendo dessa resposta...
- Agora sim, isso foi eu... – Confirmei.
- Tá vendo, meritíssimo!  Ele é culpado, seu Juiz? Disse o advogado ao juiz  cara de meretriz.
- Hum! Isso é interessante! Prossiga... – Disse ele com cara de convicção em não sei o quê.
- Por que você roubou o coração do José? – Perguntou o advogado de acusação com cara de ódio.
- Eu tinha esperança de ressuscitar ele... Queria proteger, cuidar... – Disse triste pensando no meu querido José.
- Então você confessa sua culpa? – Perguntou o advogado sem dó nem piedade.
- A minha única culpa foi de ter roubado o coração do José! Se isso é crime, então eu o confesso...
- Concluo que isso já é o suficiente, meritíssimo! – Disse o advogado de acusação com a maior revolta do mundo.
Aquele julgamento parecia mais um duelo só que de palavras, em vez de espadas. E era cada corte injusto. Enquanto aguardava a sentença, vi que o padrasto fazia um gesto com os dedos imitando uma tesoura, parecia que mandava cortar alguma coisa, o cara de tucano sorridente sorria feliz da vida com a tragédia, o cara de cunhão só sabia dormir na sessão, a tal da Cris Marinho ficava filmando tudo com o celular, aposto que a gravação ia vazar pro esgoto, os ratos fariam a festa...
- Atenção, já tenho a sentença final do julgamento. – Disse ele sem nenhum ar de surpresa, e atraindo para si todas as atenções, traindo . O olhar dele estava mais preso à gente da direita, e foi sem nem sequem me olhar nos olhos que ele determinou:
- Determino Luiz da Silva Junior como culpado!  E condenado a nove anos e meio – Falou o juiz sem nem ler direito o processo.
- Eu sabia que ele ia dizer isso... Justiceiro do mal! – Gritei bem alto aos quatro cantos.
- Silêncio! - Dizia o advogado.
- Eu digo mesmo... Ele tá é se vingando de mim... – Disse inconformado com a injustiça.
Quando deixamos o julgamento, as ruas haviam sido tomadas por uma imensa multidão que gritava em defesa da democracia e do Lula. Adormeci no ônibus, e durante a viagem de volta pra casa tive um lindo sonho. Nele José havia ressuscitado e estávamos felizes em casa, painho havia voltado com mainha, e já não havia nem sinal do padrasto e do juiz dos menores.




segunda-feira, 24 de julho de 2017

CONTO: PAGANDO O PATO


PAGANDO O PATO

Ellen Oliveira

- É hoje que a cobra vai fumar! – Disse mainha, com cara de revolta.
- O que foi, mainha? – Perguntei com cara de temor.
- Seu pai, deu um Golpe e nos enxotou de casa que nem cães vira-latas e não tá pagando a pensão... Pra piorar cortaram o Bolsa Família... E pra completar a tragédia o governo disse que vai parcelar o pagamento de todos os servidores públicos, de novo... – Disse mainha, que era merendeira na escola pública do estado, e agora pagava um aluguel com dificuldades.
- Eita, mainha! E agora? – Perguntei aflito.
- Vou lá tirar satisfação com seu pai...  Não vou esquecer nunca que ele deu um Golpe pra ficar com a casa e agora faz o que bem quer... Pensa que vai ficar assim, tá muito enganado... – Disse mainha toda revoltada.
- Ele não é meu pai não, mainha... É padrasto... – Disse eu, com raiva mesmo.
- Modo de falar, filho... Dizem que pai é o que cria... – Disse mainha tentando corrigir o engano.
- Ele não me criou a gente não, mainha... Ele só criou foi coisa ruim pra gente... Isso sim! – Disse corrigindo mainha.
- Tá certo, meu filho! Você tá certo! – Disse mainha toda triste, tadinha.
- E quando ele vai devolver nossa casa, hein mainha? – Perguntei ao ver mainha olhando a bolsa e confirmando que a chave estava lá.
- Não sei meu filho! Tô lutando pra a gente voltar logo logo pra nosso casa... Que é nossa por direito!... Mas tá difícil... Ele se acha muito alto! – Dizia mainha, triste e pensativa, mas com cara de luta.
- Mainha... – Começei a ensaiar a fala, mas temi continuar...
- O quê? Diga... Pode falar! – Disse mainha ao ver que eu estava meio com medo de falar.
- É que é o dia das crianças, mainha... – Disse lembrando a ela do nosso dia.
- Ah, meu filho! Na situação que a gente se encontra nem tenha esperança de ganhar nada não... Mas não fique triste! Em breve as coisas vão melhorar... Você vai ver! A gente vai sorrir de novo...  E tem mais, dia das crianças é todo dia! – Disse mainha.
- Eu vi um pato tão bonito lá na loja... – Falei lembrando de um pato de brinquedo.
- Ah, meu filho! Sinto muito, meu amor, mas não podemos pagar por esse pato... – Disse mainha bem séria!
- Tá bom, mainha! – Aceitei, porque mainha entende das coisas.
- Vai se arrumar pra gente ir lá lutar por nossa casa... – Disse mainha, com a fé e esperança de uma guerreira ferida, mas não vencida.
- A senhora vai expulsar o homem mal da nossa casa, é mainha? – Disse eu sentindo o ânimo da luta e da revolta.
- Se for preciso vou sim, meu amor! Temos que lutar e defender o que é nosso! – Disse mainha.
- Mainha, eu vou com a senhora pra te defender dele... – Falei pra mainha me sentindo homem igual a painho, meu verdadeiro pai.
- Tá bom, meu amor! Mas mainha é forte e sabe brigar, viu! – Disse mainha com cara de leoa.
- Cheguei, família! – Disse a maninha chegando mais cedo que de costume.
- Já, filha? – Disse mainha estranhando a chegada de minha irmã.
- Sim, mainha! Tá a maior zueira lá na Faculdade... – Disse maninha.
- Por que? O que houve?
- Os alunos estão revoltados com os cortes do Fies... Alguns não vão mais conseguir estudar... Dá pra acreditar nisso? – Disse a mana revoltada.
- Caramba! Porque tão fazendo isso? Tão acabando com tudo... – Disse mainha inconformada.
- Disseram que tem que reduzir os gastos do Governo Federal... – Explicou maninha...
- Ah, e por isso os estudantes têm que pagar o pato? – Perguntou mainha indignada.
- Como sempre, né mainha, só sobra pros mais fracos... – Disse maninha ainda com a bolsa nas costas.
- Verdade... Ah, vai guardar a bolsa e vem comigo e seu irmão lá na casa... – Disse mainha.
- Fazer? – Perguntou a mana.
- Vamos exigir nossa casa de volta, e todos os nossos direitos...
Fomos de mãos dadas os três juntos exigir nossa casa de volta. Como mainha sempre diz, a união faz a força. E nós estávamos muito unidos. O tempo estava fechado, como a porta da casa que mainha havia deixado escancarada quando saímos. Ficamos os três ali por uns instantes olhando a casa, ouvindo seu pedido de socorro. O padrasto andava dizendo por aí que havia reformado ela todinha, mas na verdade a casa tava toda deformada, com um monte de emendas mal feitas e cortes absurdos. O jardim totalmente destruído, o rio secou. Também diminuíram o teto, tava cheio de goteiras. A casa chorava, e suas lágrimas foram usadas como pintura verde amarela que encobria toda a podridão dos ratos. Parecia uma casa velha e cheia sujeira ao redor dela. Quando a gente morava lá mainha limpava todo santo dia, mas o padrasto era muito imundo demais, tava dando até ratos e dos grandes. Mainha fuçou a bolsa e achou a antiga chave estrela que guardava na esperança de usá-la pra ter a casa de volta. Estava pronta pra abrir a porta, quando ouvimos a voz insuportável do vampiro sangue suga.
- Nem adianta tentar... Troquei a fechadura! – Disse o padrasto nos assustando com sua chegada.
- É muito atrevimento, mesmo... Acha mesmo que vai ficar com a casa, né? Mas tá muito enganado... Eu e o pai dos meus filhos construímos essa casa e agora vem você e nos expulsa dela e acha que vai ficar por isso mesmo...
- Querida, assim é o jogo! Uns perdem, outros ganham... – Disse com aquela voz insuportavelmente má.
- Você tá muito enganado se acha que vai ficar por isso mesmo... Maldita hora que confiei em você... Seu traidor canalha! – Dizia mainha arrependida e revoltada.
- Se você veio até aqui na esperança de voltar pra casa, perdeu seu tempo... – Agora quem dá as ordens aqui sou eu. – Dizia o bandido.
Enquanto ele falava a porta da casa se abriu e um adolescente espinhento saiu de lá todo vestido de verde e segurando um enorme pato amarelo como se fosse seu brinquedinho preferido.
- Veja mainha... O pato... – Disse eu ao ver o mauricinho da escola abrindo a porta de nossa casa como se fosse dono.
- Foi meu pai que me deu de presente... – Disse todo cheio de si.
- Aposto que você comprou com o dinheiro da nossa conta, não foi? – Perguntou mainha enfurecida.
- Que importa?... – Disse o padrasto do mal.
- Ah, importa e muito! Quero saber... Diz aí, quem foi que pagou o pato? – Perguntou mainha sem se intimidar.
- Isso não é mais da sua conta? – Respondeu dando as costas pra mainha.
- É da minha conta sim... Eu e as crianças fomos tirados de nossa casa e estamos comendo o pão que o diabo amassou... – Disse mainha revoltada mesmo.
- Quer saber? Tô pouco me lixando pra você e seus filhos malcriados... – Disse ele voltando-se para mainha e pra nós.
- Não fale assim da gente, não! Seu aproveitador... – Disse maninha tentando defender a gente.
- É! Não fale assim não.... Senão eu vou chamar painho pra vim tirar você da nossa casa... – Disse com raiva e me sentindo valente igual a painho.
- Pode chamar quem vocês quiserem, o papa, o presidente, até o exército... Eu não saio! A casa pode cair na minha cabeça, mas eu não saio! Tão ouvindo? – Disse numa teimosia maligna.
- Isso é o que veremos! Se pensa que eu e as crianças vamos pagar por esse pato tá muito enganado... – Disse mainha enfrentando ele.
- Não é o que veremos, é o que já estamos vendo, querida! – Disse debochando de mainha e da gente.
- Não pense que isso acabou.... A luta tá só começando! – Disse mainha firme e decidida.
- Tchau, querida! Ah, e leve esses malcriados juntos... – Disse o padrasto dando as costas e entrando na casa.
- Quén, quén, qué... – Fazia o mauricinho brincando com o pato tirando onda com a nossa cara antes de voltar a entrar na casa, me lembrando a música de Gilberto Gil.
- A alegria de vocês vai durar pouco! Isso não vai terminar assim! – Disse mainha, segurando a nossa mão forte ...
Foi naquele dia que entendi que o pato, às vezes, é um brinquedo do mal.





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