quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Análise Comparativa e interpretativa entre um poema Classicista e um Comtemporâneo

Análise Comparativa e interpretativa entre os poemas “Amor é Fogo” de Camões e “Ah, Camões!” atribuído a uma vestibulanda de 16 anos, que prestou vestibular na UFBA.

*Ellen dos Santos Oliveira
*Layanne Thays dos Santos


O poema “Amor é Fogo”, é um texto Clássico, de estilo classicista, e pertence a um período que abarca o século XVI em Portugal. Nessa obra observam-se alguns aspectos de extrema importância que caracterizam a poesia do período, da qual se percebe a influência sobre o poema em questão, da autoria de Luíz Vaz de Camões, que é tradicionalmente considerado o maior poeta lírico português.

Amor é fogo que arede sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contntar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?


Já o “Ah, Camões!”, é um poema atual, pós-moderno, que apresenta características modernistas. Esse poema possivelmente, foi feito por uma estudante de dezesseis anos, que prestou exame vestibular na UFBA.

Ah! Camões, se vivesse hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e prozac para a depressão.
Compravas um computador,
consultavas a internet
e descobririas que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo!



II. Estrutura e sonoridade dos Poemas

O “Amor é fogo” de Camões, apresenta a estrutura estrófica de um soneto clássico italiano, cuja composição poética é de quatorze versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. Seu metro é regular com versos decassílabos clássicos. Quanto à distribuição das rimas, na primeira e na segunda estrofe as rimas são interpoladas e paralelas (ABBA, ABBA), já a terceira e a quarta estrofe apresentam rimas alternadas (CDC, DCD).

Quadro 1. Estrutura do poema “Amor é fogo” de Camões.

1° Estrofe:

1. A/ mor/ é/ fo/ go/ que ar/ de/ sem/ se/ ver, A
2. é/ fe/ ri/ da/ que/ dói,/ e/ não/ se/ sen/ te; B
3. é/ um/ con/ ten/ ta/ men/ to/ des/ con/ ten/ te, B
4. é/ dor/ que/ de/ sa/ ti/ na/ sem/ do/er. A

2º Estrofe:

5. É/ um/ não/ que/ rer/ mais/ que/ bem/ que/ rer; A
6. é/ um/ an/ dar/ so/ li/ tá/ rio/ en/ tre a/ gen/te; B
7. é/ nun/ ca/ con/ ten /tar/ -se/ de/ con/ ten/ te; B
8. é/ um/ cui/dar/ que/ ga/nha em/ se/ per/der. A

3º Estrofe:

9. É/ que/ rer/ es/ tar/ pre/ so/ por/ von/ ta/de; C
10. é/ ser/ vir/ a/ quem/ ven/ ce, o/ ven/ ce/ dor; D
11. é/ ter/ com/ quem/ nos/ ma/ ta,/ le/ al/ da/ de. C

4º Estrofe:

12. Mas/ co/ mo/ cau/ sar/ po/ de/ seu/ fa/ vor D
13. nos/ co/ ra/ ções/ hu/ ma/ nos/ a/ mi/ za/ de, C
14.se/ tão / con/ trá/ rio a/ si/ é o/ mes/ mo A/ mor? D

Em relação ao ritmo, o poema é composto por estrofes isorrítimica, e predominam os versos decassílabos heróicos, sendo que os versos 1, 2, 3, 4, 5, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14 apresentam tonicidade nas sextas e décimas sílaba, e o verso 6, são tônicas a sétima e a décima sílaba, como estão destacadas em negrito no quadro acima. Os versos decassílabos produzem uma emissão sonora prolongada e variada, reproduzindo gradativamente os paradoxos, fazendo com que os sons se choquem entre si, ressaltando as contradições do poema. Nos versos 1, 4, 5, 8, 10, 12, 14 os sons são agudos (oxítonos) e nos versos 2, 3, 6, 7, 9, 11, 13 os sons são graves (paroxítonos).
Feita a análise externa do poema “Amor é fogo”, segue-se da mesma forma com o poema “Ah, Camões!”, com o intuito de compará-los em seguida.

Quadro2. Estrutura do poema “Ah, Camões!” atribuído a uma vestibulanda de 16 anos.
1. Ah!/ Ca/ mões/ se/ vi/ ves/ se/ ho/ je em/ di/ a, A
2. to/ ma/ vas/ uns/ an/ ti/ pi/ ré/ ti/ cos, B
3. uns/ quan/ tos/ a/ nal/ gé/ si/ cos B
4. e/ Pro/ zac/ pa/ ra a/ de/ pres/ são. C
5. Com/ pra/ vas/ um/ com/ pu/ ta/ dor, D
6. con/ sul/ ta/ vas/ a in/ ter/ net E
7. e/ des/ co/ bri/ ri as/ que es/ sas/ do/ res/ que/ sen/ ti/ as, A
8. es/ ses/ ca/ lo/ res/ que/ te a/ bra/ sa/ vam, F
9. es/ sas/ mu/ dan/ ças/ de hu/ mor/ re/ pen/ ti/ nas, A
10. es/ ses/ de/ sa/ ti/ nos/ sem/ ne/ xo, B
11. não/ e/ ram/ fe/ ri/ das/ de/ A/ mor, D
12. mas/ so/ men/ te/ fal/ ta/ de/ se/ xo! B

O “Ah, Camões!” é estruturado em uma única estrofe polimétrica com 12 versos. Seu metro é irregular, uma vez que, os versos 1 e 9 são decassílabos, o 3 é hexassílabo, os versos 2, 4, 5, 10 e 11 são octossílabos, o 6 é heptassílabo, o 7 é dodecassílabo e os versos 8 e 11 são eneassílabos, ou seja, os versos são livres, pois não apresentam uma forma regular fixa. Quanto à distribuição das rimas, nos versos 1, 7 e 9 as rimas são alternadas, pois rimam as duas últimas vogais, sendo que as penúltimas vogais são tonicas (i) e as últimas vogais são átonas (a). Nos versos 2, 3, 10 e 12 apresentam as mesmas rimas, que são as vogais tônicas (e) e as últimas vogais átonas (o), ainda que nos versos 2 e 3 as rimas são paralelas, e nos versos 10 e 12 elas são interpoladas, nesses quatros versos se estabelece uma relação de alternância entre eles. Nos versos 5 e 11 apresentam rimas alternadas e nos versos 6 e 8 apresentam rimas brancas. Em relação ao ritmo, o poema possui uma única estrofe heterorrítmica, já que os versos possuem ritmos diferentes. Analisando o aspecto sonoro no poema apresenta uma leve aliteração (s, m, n), e nos versos 2, 3, 4, 5 e seis apresentam uma leve assonância (a), no poema temos uma seqüência gradativa que inicia no verso 5, segue no 6 e quando parece finalizar na primeira oração do verso 7, continua na segunda oração e segue gradualmente nos versos 8, 9, 10, e 11, até alcançar o clímax no verso 12. Nos versos 4, 5, 6 e 11 os sons são agudos (oxítonos), nos versos 1, 7, 8, 9, 10 e 12 os sons são graves (paroxítonos) e nos versos 2 e 3 os sons são exdrúxulos (proparoxítona).
Percebe-se até aqui, que os dois poemas são distintos quanto às suas estruturas. Sendo que o poema de Camões é um soneto Clássico, cujas composições: estrófica, métrica, e rímica, seguem uma forma regular e fixa. E o poema atribuído à vestibulanda possui versos livres e rimas irregulares.

III. Análise semântica dos poemas

Adiante segue a análise semântica do poema da vestibulanda e do poema de Camões respectivamente.
No “Ah, Camões!”, da vestibulanda percebe-se uma relação de metonímia, pois onde no poema diz: “... tomavas... Prozac para a depressão”, entende-se um sentido figurado da palavra, que substitui a marca pelo conteúdo, pois o certo denotativamente seria “tomavas remédio para a depressão”.
Já no poema “Amor é fogo” o poeta faz uso de algumas figuras de linguagem, dando um sentido conotativo característico do texto literário. Então temos no poema metáforas, que é quando o poeta define o amor comparando-o ideologicamente: “Amor é fogo... é ferida... é dor...”, temos também paradoxos, presente nos primeiros versos (do 1 ao 11), que conota o sentido das palavras de tal forma que extrapola a lógica, porém esse recurso de linguagem permitiu que o autor transformasse idéias que, racionalmente, são falsas, em verdadeiras do ponto de vista psicológico e poético. Do 2º ao 11° verso a retomada do verbo ser (é) estabelece uma relação anafórica. Nas três primeiras estrofes percebe-se uma gradação, pois o autor apresenta, gradativamente, uma série de idéias acerca do amor até alcançar o clímax no desfecho da última estrofe.
O poema de Camões segue os modelos da Antiguidade Clássica greco-romana, já que a poesia dessa época distingue-se pela retomada da perfeição estética, marcada pela busca da pureza das formas. O poeta clássico apresenta um poema inovador, que, ao aderir a medida nova (versos decassílabos) enquadra-se perfeitamente no estilo novo do Renascimento, opondo-se à herança medieval representada pela redondilha. O poema também exibe características do barroco, que é a escola literária que sucede a sua época, e isso é percebido através do incessante conceptismo contraditório, nas composições paradoxais que define através de metáforas, o amor, que é um dos temas mais ricos da poesia camoniana. Percebe-se também o dualismo entre a carne e o espírito, entre o amor carnal e o amor idealizado (platônico).

IV. Análise interpretativa dos poemas

Pretende-se a seguir, Interpretar o amor segundo Camões, através do soneto “Amor é Fogo”. Logo no início do poema, precisamente, no primeiro verso quando o poeta diz que o “Amor é fogo que arde sem se ver” lembra o início do amor, que é aquele “fogo” que se sente quando se descobre que ama alguém, então se percebe um sentimento que queima interiormente, causando sensações de êxtase, a partir daí não enxerga-se defeitos na pessoa amada, somente qualidades. Quando diz “é ferida que dói, e não se sente” refere-se à superioridade do amor em relação ao sofrimento por ele causado, pois o amor é como uma ferida que causa dor, porém esse sentimento é tão superior que nem se sente. Ao dizer que “é um contentamento descontente”, percebe que é a felicidade que se sente pela felicidade da pessoa amada. Analisando o quarto verso, quando o poeta diz que o amor “é dor que desatina sem doer”, faz crer que o sentimento tolera qualquer sofrimento ou dor, e suporta tudo. Já no quinto verso do poema diz “é um não querer mais que bem querer”, fala de um amor que não é egoísta, pois a pessoa que ama nega seu próprio ego em função do bem querer da pessoa amada. E no sexto verso ao citar que “é um andar solitário entre a gente”, diz que, por mais que um amante esteja entre outras pessoas, se não tiver com pessoa amada ao lado, estará (andará) sempre sozinho, tendo uma vida solitária. No sétimo verso o escritor lírico continua dizendo que amar “é nunca contentar-se de contente”, portanto a felicidade de amar nunca satisfaz, pois o ser humano não almeja ser feliz no amor uma única vez, um único dia..., mas quer a felicidade de amar eternamente, e também ”é um cuidar que ganha em se perder” ,ou seja, é “abrir mão” ou perder algo por cuidar de não perder a pessoa que ama, e “é querer estar preso por vontade”, ou seja, quando se ama, deseja estar preso à pessoa amada, e quando o amor não é recíproco, esse “querer estar preso” é mais intenso. O décimo verso ao dizer que amar “é servir a quem vence, o vencedor” refere-se à servidão amorosa, que é desprovida de qualquer competitividade entre a pessoa que ama e a pessoa amada, e ainda “é ter com quem nos mata, lealdade” é ter junto alguém que satisfaça como amigo, amante e companheiro, sendo sempre leal, ou melhor, sincero, franco e honesto. Depois de tantas definições e reflexões acerca do amor na última estrofe Camões indaga o seguinte: “Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo amor?”, ou seja, Camões interroga como o favor (a graça, ou a beleza) do amor, pode causa amizade, (afeição), nos corações humanos (os amantes e apaixonados), se ele é um sentimento tão contraditório? O poema finaliza com essa dúvida, porque isso é inexplicável.
Nesse poema poema de Camões há um eu - lírico não-emotivo, pois embora haja expressão do sentimento, predomina a racionalidade. O poeta tenta definir o amor através do soneto, e ainda que esse siga o padrão clássico quanto à métrica, à estética, e ao ritmo, o poema se opõe na exposição do raciocínio não apresentando uma conclusão, e finalizando com uma dúvida na última estrofe, daí percebe-se o quanto o amor é contraditório e indefinível, não somente para Camões e os apaixonados de sua época, como também para amantes de todas as épocas. E isso torna do poema, um Clássico, um contemporâneo, pois não há quem, de qualquer época ou de tempos atuais, que consiga definir racionalmente o amor.
O poema da vestibulanda apresenta uma intertextualidade implícita com o poema de Camões, percebe-se a referência a esse poema logo no primeiro verso do poema pós moderno, quando diz “Ah, Camões...”, o eu - lírico estabelece um diálogo entre os dois poemas. Enquanto Camões tenta conceituar o amor, atribuindo - lhe definições contidas nos onze primeiro versos:


“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.
é um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
é querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.” (CAMÔES)


A adolescente sugere hipoteticamente que, se o poeta Clássico vivesse nos tempos atuais, tomavas uns antipiréticos (antifebril) para combater a febre que é o “fogo que arde sem se ver”, depois alguns analgésicos para amenizar a dor da “ferida que dói e não se sente”, que é uma “dor que desatina sem doer”, e tomava Prozac para tratar da depressão.


“Ah” Camões se vivesse hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão. ”(vestibulanda de 16 anos)


O diálogo continua na conclusão dos dois poemas, pois enquanto Camões apresenta somente contradições sobre o amor, finalizando com uma dúvida, a estudante conclui seu poema dizendo que todas essas especulações sobre o amor citadas por Camões “não eram feridas de amor, mas somente falta de sexo!”.
V. Considerações Finais

Conclui-se que apesar das diferenças expostas, os dois poemas tratam o amor de forma realista, porém suas realidades são distintas. O poema do poeta português baseia-se no dualismo platônico, entre sensível e inteligível, matéria e espírito, que ora é visto como idéia, ora como carnalidade. O amor é tido como um sentimento supremo, embora contraditório, e, no entanto inexplicável. É portanto, um poema que expressa as contradições entre o amar, o querer, e o sofrimento dos amantes e apaixonados. No poema da jovem estudante reflete a negação do amor, que está relacionado ao prazer do ato sexual, ou seja um sentimento puramente carnal, que rejeita qualquer manifestação de afeto, e descrente de sensibilidade, em que o sofrimento amoroso de antes, a dor do amor não correspondido, “a coita amorosa” , hoje chama-se depressão, que aliais como sugere a adolescente, já tem até remédio para esse sofrimento amoroso, ou depressão, que por sinal é consequência da abstenção sexual. Infelizmente, essa concepção de amor, faz parte da vida de muitas pessoas atualmente, sendo assim um conceito realista.

BIBLIOGRÁFIA:

_______Figuras de Linguagem: um meio auxiliar na análise da retórica material. Disponível em: < id_dh="3805"> . Acesso em: out. 2010.

PINHEIRO,E. J. C.A Literatura Portuguesa: das origens ao Arcadismo. 2ed. São Paulo: Editora USJT, 2007.

TAVARES, Hênio. Teoria Literária.Belo Horizonte:Villa Rica Editora, 1996.

3 comentários:

  1. Cara, muito boa essa análise, eu tava chio de duvida, esse trabalho me ajudou muito, Parabéns, nota dez pra vc mina

    ResponderExcluir
  2. parabéns pelo seu trabalho!!!!!!!!!

    ResponderExcluir
  3. passei por cá
    muito boa análise, se não se importa, gostaria de colocar o seu link e uma parte do texto onde indica a estrutura do poema de camões :)
    com abraços
    Angela

    ResponderExcluir

Sobre os Direitos Autorais

Em obediência à Lei 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais), qualquer informação deste BLOG poderá ser reproduzida desde que citada a fonte. Quem assim não o fizer, poderá ser penalizado de acordo com o artigo 184 do CÓDIGO DE PROCESSO PENAL em vigência.

Blogs que Colaboro