segunda-feira, 2 de julho de 2012

A FACE DURA DO MAL EM “A HORA DA ESTRELA”



A FACE DURA DO MAL EM “A HORA DA ESTRELA”
Ellen dos Santos Oliveira

Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade que tem braços abertos
Num cartão postal
Com os punhos fechados na vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê

(Hebert Viana, Alagados In. Selvagem?)

A professora e psicóloga da USP, Yudith Rosenbaum, A Hora da Estrela, última obra escrita por Clarice Lispector, é quase um testamento ou um testemunho de uma escritora diante da morte, já que lutava contra o câncer no útero quando concluiu a história.  “Migrante da Ucrânia para o Nordeste e depois para o Rio de Janeiro, Clarice se projeta na protagonista, Macabéa, que sai de Alagoas para morrer no Rio, ‘uma cidade feita toda contra ela’” (ROSENBAUM, 2002, p.55). Aliás, a migração é uma das temáticas marcantes da história de Macabéa, cujo próprio nome traz consigo uma carga significativa. Macabéa representa toda a descendência dos hebraicos macabeus, zelotas bíblicos que viviam oprimidos pelos gregos, quando estes dominaram Jerusalém em 175 a.C e forçaram a helenização dos judeus proibindo a Torá e os ritos religiosos monoteístas. Como é contado pela história, os macabeus “resistiram e não cederam à cultura dos deuses olímpicos do paganismo grego, continuando fiéis à Lei de Moisés, garantindo a liberdade religiosa e a não-assimilação pela nova sociedade que se impunha” (ROSENBAUM, 2002, p.61-62). Em A Hora da Estrela, o mal sofrido pela personagem Macabéa, retoma, simbolicamente, o mal que afligia os macabeus. Só que este mal assume uma nova face, uma vez que os problemas já não são os mesmo vividos pelos imigrantes do período helenístico, existentes a cerca de aproximadamente mais de dois mil anos de espaço temporal. 

Na sociedade Pós-moderna, a migração é uma das “possíveis consequências da globalização, isto é, a homogeneização das identidades globais”. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, as pessoas das periferias são atraídas para os centros urbanos das grandes metrópoles imperialistas. É um dos períodos mais longos e sustentados de migração não-planejada da história recente (HALL, 2001, p.80-81). Em A Hora da Estrela as migrações das personagens nordestinos Macabéa e Olímpico de Jesus, em, que foram impulsionadas pelo mal causado pelos homens da sociedade Pós-Moderna, há também, na narrativa, a representação dos imigrantes portugueses, como o pai de Glória, que como muitos fugiam de Portugal, que era um dos países mais pobres e atrasados da Europa. Usaremos nesta reflexão, o conceito de mal que é geralmente associado à religiosidade ou à moral, mas no sentido coletivo. Um mal, cujo “Seu sentido se reforça na oposição com o bem, definindo dois ponteiros extremos”. Em geral, associa-se ao bem tudo “aquilo que oferece paz, alegria, otimismo, equilíbrio, fé e amor”, em contrapartida, associa-se ao mal tudo que “provoca angústia, dor, desequilíbrio, desesperança ou ódio” (RAMALHO, 2011, p.189).  O mal que será tratado aqui, também pode ser compreendido nesta definição apresentada por Ferreira:

mal¹ sm. 1. O que é nocivo, mau. 2. Aquilo que se opõe ao bem, à virtude, à honra. [Antôn. 1 e 2: bem] 3. Enfermidade. 4. V. infortúnio. 5. V. malefício(1). [Pl. males.] 
mal² adv. 1.De modo mau, ou diferente do que deveria ser. 2. Incorretamente. 3. Insatisfatoriamente. 4. De modo desfavorável. 5. Rudemente. 6. Escassamente; pouco. 7. A custo; dificilmente. 8. Gravemente enfermo. conj. 9. Logo que; apenas.  (FERREIRA, 2001, p.440, grifo nosso)

Em A Hora da Estrela os fatores, são ações humanas que causam esses males e trazem consequências devastadoras, causando o infortúnio de Macabéa. Os males que ela, mesmo na ignorância, vivencia são os mesmos males apresentados por Hall, que são: a pobreza, a seca, a fome, o subdesenvolvimento econômico e as colheitas fracassadas, a guerra civil e os distúrbios políticos, o conflito regional e as mudanças arbitrárias de regimes políticos, a dívida externa acumulada de seus governos para com os bancos ocidentais. E em decorrência desses males, causados pelos sujeitos pós-modernos, “as pessoas mais pobres do globo, em grande número, acabam por acreditar na mensagem do consumismo global e se mudam para os locais de onde vêm os bens e onde se acredita que as chances de sobrevivência são maiores” (HALL, 2001, p.81). Então muitos se deslocam para o Rio, onde, acreditam encontrar uma melhor sorte, mas muitos se decepcionam ao ficarem diante da face dura e cruel do mal, e poucos veem a face do bem. A cidade moderna é um lugar ao mesmo tempo deslumbrante e aterrorizador. A multidão, a competição mercantil, e salve-se-quem-puder cotidiano, tudo isso faz pesar sobre cada cidadão uma série de ameaças psicológicas e físicas (PERRONE-MOYSÉS, 2007, p.136). O deslumbrante e o aterrorizador, e será relacionado como duas faces nesse processo migratório, a exemplo os casos dos nordestinos que migram das suas cidades interioranas para as grandes metrópoles como é representado, principalmente, por Macabéa e Olímpico de Jesus. Estas duas faces são: a deslumbrante face do bem e a aterrorizante face dura do mal.

AS DUAS FACES NO RIO DE JANEIRO

Em A Hora da Estrela é narrada a história de Macabéa, “uma moça pobre de Alagoas, o estado em que os Lispector se estabeleceram ao chegar ao Brasil, e que migrou, como os Lispector e tantos milhões de outros para a Metrópole do Rio de Janeiro” (MOSER, 2009, p.633).  O Rio de Janeiro é também espaço físico da escrita e narrativa. A música Alagados de Hebert Viana, citada em epílogo, expressa bem essas duas faces do Rio: a deslumbrante face do bem quem mostra uma “cidade que tem braços abertos num cartão postal”, vista por quem está do lado de fora da cidade ou por aqueles alienados que se recusam a enxergar a triste realidade aleia, por fazerem parte de uma classe privilegiada; a aterrorizante face dura do mal é vista e refletida nos seres marginalizados pela sociedade, os excluídos, os esquecidos, os que foram enganados pela propaganda turística, e que, ao migrar para o Rio se deparam “Com os punhos fechados na vida real” de uma sociedade que “nega oportunidades” e mostra a sua aterrorizante “face dura do mal”.

O Rio de Janeiro de Clarice e de Macabéa é o Rio que “estava no auge de sua reputação internacional” e que “tinha se transformado num dos destinos mais chique do planeta” (MOSER, 2009, p.151). Inclusive, “São Paulo, com grande força industrial emergente, rivaliza com o Rio pela preponderância econômica, mas para o Brasil como todo só havia uma única e indiscutível capital, e aos olhos do mundo o Brasil era o Rio”. Parece que o Rio era uma cidade deslumbrante, que atraiu migrantes nordestinos e Portugueses. Pois, vale lembrar, que quase um milhão de portugueses chegaram ao Brasil. Muitos desses migrantes se juntavam à classe média baixa, que eram: pequenos lojistas, artesãos e comerciantes. Em A Hora da Estrela o pai de Glória é de origem Portuguesa, e representa essa classe de migrantes, que possuíam alguma vantagem se comparados aos migrantes nordestinos, contrastando com os portugueses, que frequentemente tinham alguma habilidade com valor de troca. Na narrativa esse contraste é bem nítido nas personagens Glória e Macabéa. Representado os Portugueses Glória “era estenógrafa e não só ganhava mais como não parecia se atrapalhar com as palavras difíceis das quais os chefes tanto gostava”, diferente dos nordestinos sem instrução ou qualificação, como Macabéa que se dizia datilografa, mas era incompetente e “errava demais na datilografia, além de sujar invariavelmente o papel” e o que a fez permanecer por algum tempo no emprego era o sentimento de pena que ela despertara em seu chefe (LISPECTOR, 1998, p.40,25). Então parece que não é por acaso que Glória é na narrativa a personagem que rouba o namorado de Macabéa, já que era práxis, muitos portugueses roubavam as oportunidades e esperança de muitos nordestinos brasileiros. Assim, a amizade entre Glória e Macabéa representa a competividade do mundo capitalista. Macabéa não conseguia se enquadrar nesse mundo porque ela “não tinha força de raça, era subproduto” (LISPECTOR, 1998, p.59). Glória era mulata, representava as duas raças que contribuíram para a formação ideológica de um Brasil. Ela era de origem portuguesa e africana, de aparência branca, que realçava oxigenando os cabelos em “amarelo-ovo”.  Aos olhos de Olímpico, esses “atributos” de Glória foram consideráveis para fazê-la despontar em qualidades. Glória possuía a beleza associada à raça branca e a competência para o trabalho associada à raça negra. E, além disso, ela tinha uma grande vantagem diante dos nordestinos: ela era carioca.

Glória possuía no sangue um bom vinho português e também era amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido. Apesar de branca, tinha em si a força da mulatice. Oxigenava em amarelo ovo os cabelos crespos cujas raízes estavam sempre pretas. Mas mesmo oxigenada era loura, o que significava um degrau a mais para Olímpico. Além de ter grande vantagem que nordestino não podia desprezar. É que Glória lhe dissera, quando lhe fora apresentada por Macabéa: “sou carioca da gema!” Olímpico não entendeu o que significava “da gema” pois era uma gíria ainda do tempo da juventude do pai de Glória. O fato de ser carioca tornava-a pertencente ao ambicionado clã do sul do país. Vendo-a, ele logo adivinhou que, apesar de feia, Glória era bem alimentada. E isso fazia dela material de boa qualidade (LISPECTOR, 1998, p.59).

Ao contrário de Macabéa, Glória pode contemplar um pouco dessa face deslumbrante do Rio, pois é filha de um imigrante português que conseguiu conquistar seu espaço em uma sociedade capitalista. Glória consegue desfrutar do bem que proporcionado por condições mínimas para uma boa qualidade de vida e até um futuro feliz, como: alimentação, moradia, convívio social e familiar. Já Macabéa não tem a mesma felicidade. Ela é vítima de um mal coletivo e, antes de sua trágica morte, verá aterrorizante face dura do mal em sua vida de fome, miséria, dor, sofrimento, armadilhas, enganos e desenganos. 
Se pensar em mal, baseando-se no pensamento de Rousseau, em que o “mal é uma questão de sofrimento e não de especulações ou demonstrações argumentativas: sei que o mal existe porque sofro o mal como sofro minha existência moral” (COSTA, 2005) Rousseau afirmará que "para nós, existir é sentir". É pela via do sentimento que sabemos se o estado das coisas implica num mal ou num bem: "tudo que sinto estar mal está mal". "o mal particular está apenas no sentimento do ser que sofre, e tal sentimento o homem não recebeu da natureza, causou-o a si mesmo" (idem). A delicadeza de Macabéa não a deixava ver o mal que a perseguia desde seu nascimento, “ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de não-sei-o-quê”  desde o nascimento o mal a persegue, perde os pais aos dois anos de idade devido a “uma febre ruim no sertão de Alagoas”, depois foi morar com a tia beata que fez de tudo para conduzi-la ao caminho do bem e assim evitar que fosse prostituta, mas “morta a tia, ela nunca mais fora a uma igreja porque não sentia nada e as divindades lhe eram estranhas”, então, migra para o Rio de Janeiro onde verá a face mais aterrorizante do mal, e por fim morrerá. Mas Macabéa era tão ignorante que nem sabia que o mal existe, e por isso não sentia o mal, aliás, “ela nem sabia o que ela era”, “ela não sabia que era infeliz”, “daí não se sentia infeliz”, aliás, “ela pensava que uma pessoa era obrigada a ser feliz. Então era” (LISPECTOR, 1998, p.26-29).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cidade metropolitana, o Rio de Janeiro, tornava-se o mal na realidade de muitos nordestinos imigrantes na cidade. Entre esses retirantes, uns buscam novas perspectivas de vida, outros já não têm perspectiva nenhuma. Em A Hora da Estrela percebe-se isso nas representações dos personagens Olímpico de Jesus que queria ser político para assim alcançar algum prestígio social, e em Macabéa que diferente do namorado não tinha nenhuma perspectiva existencial. A simplicidade resistente de Macabéa não permite que se adapte à civilização moderna, pois ela era "incompetente para a vida", para a sociedade capitalista — diferentemente de Olímpico de Jesus, que já foi seduzido pela sociedade de consumo, perdeu do seu "delicado essencial" (ROSENBAUM, 2002, p.62). O Rio é, para Macabéa, o cenário para sua morte, o signo esfíngico das arribações de todas as dívidas, pagas com fome, emboscada, desespero, dor, indiferença, tédio, hipocrisia, sonho de cadafalsos, com o seu, enfim, atropelamento, trágico fim, porém, não mais trágico que a sua inexistência (SOARES, 2009).
REFERÊNCIAS 

COSTA, Israel Alexandria. Rousseau e a origem do mal.Bahia: Dissertação de mestrado em Filosofia na UFBA, 2005.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. “Mal”. In. Miniaurélio Século XXI Escolar: o minidicionário da Língua Portuguesa. 4.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 440.

GOMES, Carlos Magno. Um Fantasma ronda A Hora da Estrela. In. SANTOS, Josalba Fabiana dos et al. Sombras do Mal na Literatura. Maceió: EDUFAL, 2011, 

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 6.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro.

LISPECTOR, Clarice.A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco,1998

MOSER, Benjamin. Clarice,. Trad. José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

RAMALHO, Cristina. O mal-estar em Eu e Os atuais retratos da miséria humana. In. SANTOS, Josalba Fabiana dos et al. Sombras do Mal na Literatura. Maceió: EDUFAL, 2011, p. 187-207.

ROSENBAUM, Yudith. Clarice Lispector. São Paulo: Publifolha, 2002.

SARTRE, Jean-Paul. Qu’est-ce que lalittérature? Paris: Gallimard,1948, col. “Folio”,1985.

SOARES, Luís Eustáquio. A hora da estrela, de Clarice Lispector: Macabéa, Dom Quixote da fome. Espéculo. Revista de estúdios literarios. UniversidadComplutense de Madrid, 2009. Disponível em: Último acesso em: 17/01/2012

VIANA, Herbert. Alagados In. Selvagem? Rio de Janeiro: EMI Records, 1986.1 música (5:00min)

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