quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Propósito Internacionalista em klaxon, Mensário de Arte Moderna



                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        Ellen dos Santos Oliveira[i] (FSLF)
Vilma Mota Quintela
[ii] (FSLF)



RESUMO:
Este trabalho trará à discussão o caráter internacionalista da revista Klaxon: Mensário de Arte Moderna, primeira revista modernista publicada no Brasil, que se constituiu de nove números, lançados entre 1922-1923. Cumpre aqui refletir sobre os apelos de caráter mercadológico e os internacionalismos presentes no primeiro número dessa publicação, destacando-se aí o ideal vanguardista e as ideias progressistas insufladas durante a Semana de Arte Moderna, com o propósito de difundir, entre o público local, as atualidades artísticas e culturais então veiculadas na Europa. Esse estudo será realizado por meio de uma análise comparativa que tomará como referência os diversos artigos inseridos na edição em enfoque, a qual abrange textos sobre as várias representações artísticas em voga na época, incluindo-se a música, a poesia e o cinema. Além disso, busca-se, neste artigo, salientar o ideal nacionalista presente nas ideias do grupo modernista liderado por Oswald e Mário de Andrade, refletidas nessa publicação.


Palavras-chave: KLAXON, Semana de Arte Moderna, Modernismo.


1     INTRODUÇÃO

O presente artigo discorre sobre o propósito internacionalista de Klaxon: mensário de arte moderna, que se constitui de nove números, lançados entre 1922-1923, primeira revista modernista publicada no Brasil e a primeira manifestação de expressão da Semana de Arte Moderna de 1922. Com o intuito de contribuir com a reflexão sobre os apelos de caráter mercadológico e os internacionalismos presentes no primeiro número dessa publicação, na qual se destaca o ideal vanguardista e as ideias progressistas insufladas durante a Semana, tomaremos como referencial, dentre outros, os estudos desenvolvidos por Maria Alice de Oliveira Faria, em Klaxon em Marselha (1975); Cecília de Lara, em A Colaboração estrangeira na revista Klaxon; CONTIER, MARTINI, HORN et al., em Revista “Klaxon”: reflexões sobre o Modernismo no Brasil; e  Leyla Perrone-Moysés, em Vira e mexe, nacionalismo, que trata sobre a questão do nacionalismo na literatura brasileira como uma problemática ligada historicamente  "à acolhida ou à recusa da influência francesa", contribuindo, assim, para o debate sobre o ideal nacionalista presente nas ideias do grupo modernista liderado por Oswald e Mário de Andrade, refletidas em Klaxon (PERRONE-MOISÉS, 2007, p. 18-19). Em suma, o estudo proposto se realizará por meio de uma análise comparativa que tomará como referência os diversos artigos inseridos na edição em enfoque, a qual abrange textos sobre as várias representações artísticas em voga na época, entre as quais se inclui a música, a poesia e o cinema, podendo-se deduzir daí o caráter interdisciplinar próprio do movimento modernista iniciado com a Semana.
2     Da Belle Époque ao Modernismo Brasileiro: os influxos internacionais
De modo peculiar, as correntes estéticas e filosóficas internacionais tiveram significativa influência sobre a produção literária brasileira do fim do século XIX, particularmente, as de origem francesa, que marcaram, de modo característico, os domínios da vida cotidiana das elites. Quanto a isso, vale salientar que a nossa República, instaurada nesse período, em que “a viagem a Paris torna-se obrigatória no currículo de todas as pessoas civilizadas”, ao som da Marseillaise, tendo sido inspirada, ideologicamente, no positivismo de Auguste Comte. Por outro lado, paradoxalmente, nessa época, na medida em que tal elite persistia em consolidar a nação brasileira a partir do estabelecimento de uma cultura própria, manifesta-se, cada vez mais veementemente, a recusa da imitação pura e simples da França (PERRONE-MOYSÉS, 2007, p. 62). A propósito, desde a fundação da Academia Brasileira de Letras, em 1896, cópia fiel da Academia Francesa, era tema frequente de discussão entre os acadêmicos a submissão cultural do país, como se pode notar nas palavras de Silvio Romero:

A influência estrangeira, francesa em particular, é infelizmente muito forte no encaminhamento de nossa literatura. Essa influência se faz sentir não apenas na adoção das doutrinas científicas, filosóficas e literárias, mas chega até o recurso vergonhoso do plágio. Se nos aconselham a abandonar a imitação dos portugueses, é para nos impelir a macaquear os franceses (ROMERO apud PERRONE-MOYSÉS, 2007, p. 62).
Vale dizer que, nesse período, surgem, na Europa, os movimentos nacionalistas, fruto não só do capitalismo, como também da elefantíase dos estados dinásticos em decadência. Para situar esse nacionalismo oficial, Benedict Anderson, explica que ele se desenvolveu em reação aos movimentos nacionais populares que, desde 1820, proliferavam na Europa. Assim, se as primeiras ideias nacionalistas haviam se modelado pela história política americana e francesa, na virada do século XIX para o XX, passa-se a pensar em um projeto de nacionalismo por um ângulo, não apenas de estratégia política, mas também e, sobretudo, cultural (ANDERSON, 2008, p.127). Enquanto isso, no Brasil, no século XX, o índio deixa de ser o centro das atenções, pois o ideal era o progresso civilizatório, e o Rio de Janeiro passa a ser uma imitação de Paris (PERRONE-MOYSÉS, 2007, p.62-65). 

Com a hegemonia política das elites de São Paulo e Minas Gerais, nas primeiras décadas do século XX, acentuou-se o desenvolvimento industrial, que marca a decadência da Belle Époque. Dessas classes elitistas, surge uma literatura acadêmica característica do período histórico antecedente à Semana de Arte Moderna, que está longe de ser apenas um registro histórico devido a seu significado artístico. Essa literatura representou “uma tendência mais autenticamente nacional, voltada para os problemas concretos do país, sem idealização das formas europeias importadas” (BENJAMIN; CAMPEDELLI, 1985, p.179-181). Encontramo-nos, então, em um período de transição, no qual, no influxo da industrialização nascente, surge uma literatura de cunho nacionalista. Essa visão de nacionalismo econômico correspondeu ao desejo de emancipação intelectual, ou seja, à busca da realidade brasileira sem idealizações. A ideia de nacionalismo ganha mais profundidade ao entender-se que “a vida política, econômica, social e cultural do país deveria ter um destino social, em função do povo brasileiro” (idem, p.182).
Antonio Candido distingue na literatura brasileira dois momentos decisivos: o Romantismo, no século XIX (1836-1870), e o Modernismo, no século passado (1922-1945), pelo fato de que “ambos representam fases culminantes de particularismo literário na dialética do local e do cosmopolita” (CANDIDO, p.118-119). Para o crítico, essas duas vertentes têm em comum o fato de que ambas se inspiram no exemplo europeu. Contudo, ainda conforme Candido, enquanto o Romantismo procura superar a influência portuguesa e afirmar contra ela a peculiaridade literária do Brasil, o Modernismo já desconhece Portugal. É no contexto do Modernismo que são conservados e elaborados os traços desenvolvidos depois do Romantismo, sem dar origem a desenvolvimentos novos. Assim, o Modernismo é a corrente que assimila melhor as influências das vanguardas francesas e do Futurismo italiano, “no que respeita às técnicas de pesquisa e expressão artística” (idem, p.129). No caso brasileiro, pois, os articuladores do Modernismo vão buscar elementos estéticos derivados, em grande parte, das vanguardas europeias:
Como no caso de movimentos literários anteriores, o Modernismo resultou de impulsos internos e do exemplo europeu. No caso, as vanguardas francesas e italianas, a começar pelo Futurismo, que ofereceram modelos adequados para exprimir a civilização mecânica e o ritmo das grandes cidades, além de valorizar as componentes primitivas, que no Brasil faziam parte da realidade (CANDIDO, 1999, p. 68-69).
Particularmente, essa corrente literária  é a que assimila melhor as influências das vanguardas francesas e do Futurismo italiano, no que respeita às técnicas de pesquisa e expressão artística (CANDIDO, 1987).

1.3.   Klaxon e a Semana de 1922
A Semana de Arte Moderna foi considerada pela crítica posterior como um momento de abertura de uma fase heroica no Modernismo brasileiro. Esta, não só marca, definitivamente, o ingresso do Brasil na modernidade, como também inaugura a visão sistêmica da Arte, isto é, a arte entendida, não mais de forma segmentada. Essa percepção gestáltica promoveu o intercâmbio entre as diversas linguagens artísticas. Com isso, promove-se a interdisciplinaridade entre literatura, pintura, escultura, música, concebendo-se a expressão artística como um Todo maior do que a soma das partes (CONTIER, 2005). A semana reuniu várias tendências que desde a “I Guerra se vinham firmando em São Paulo e no Rio, e a plataforma que permitiu a consolidação de grupos e publicação de livros, revista e manifestos, e numa palavra, o seu desdobrar-se em viva realidade cultural”. Entre as várias revistas fundadas, a primeira, de “expressão imediata da Semana” (BOSI, 2006, p. 340) foi Klaxon: mensário de arte moderna, cujo primeiro número será aqui analisado, a fim de perceber o seu caráter internacionalista já fortemente expresso.
Surgida em 15 de maio de 1922, em São Paulo, Klaxon foi o primeiro esforço do grupo para sistematizar os novos ideais estéticos do período, que misturava duas linhas vanguardeiras: a futurista, ou, lato senso, a linha da experimentação de uma linguagem moderna, aderente à civilização da técnica e da velocidade; e a primitiva, centrada na liberação e nas forças inconscientes, ainda românticas, considerando-se o surrealismo e o expressionismo neo-romantismo radicais do século XX (BOSI, 2006, p.340). Assim, Klaxon surge para veicular e propagar as ideias então propostas pelo grupo modernista paulista formado por Guilherme de Almeida (1890-1969), Luis Aranha (1901-1987), Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954), Rubens Barbosa de Moraes (1899-1986), Sérgio Milliet (1898-1966). O grupo, além de ser responsável pelo processo de produção e publicação da revista, participou ativamente de seu projeto editorial, colaborando desde às redações até o projeto gráfico.
Figura 1: capa do número 1 de Klaxon: mensário de arte moderna
Fonte: Klaxon: mensário de arte Moderna, em BRASILIANA USP

No primeiro número de Klaxon, é apresentada a problemática que irá justificar a criação da revista. Conforme é anunciado, o grupo modernista pretende construir a alegria de forma revolucionária e curar os excessos que impregnaram as escolas literárias anteriores ao movimento. A propósito, assim é exposto o problema para a justificação da revista: 

Século 19 — Romantismo, Torre de Marfim, Symbolismo. Em seguida o fogo de artificio internacional de 1914. Há perto de 130 annos que a humanidade está fazendo manha. A revolta é justíssima. Queremos construir a alegria. A própria farça, o burlesco não nos repugna, como não repugnou a Dânte, a Shakespeare, a Cervantes. Molhados, resfriados, rheumatisados por uma tradição de lagrimas artísticas, decidimo-nos. Operação cirúrgica. Extirpação das glândulas lacrimaes. Era dos 8 Batutas, do Jazz-Band, de Chicharrão, de Carlito, de Mutt & Jeff. Era do riso e da sinceridade. Era de construção. Era de KLAXON (KLAXON, 1922, nº1, p. 5).
Tal como é concebida, Klaxon é representada nacional e internacionalmente por artistas que estiveram na linha de frente dos movimentos vanguardistas da época, tendo a primeira edição como figuras de destaque Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), no Rio de Janeiro; L. Charles Baudoin (1893-1963), na Suiça; e Roger Avermaete (1893-1988), na Bélgica. Ao todo, são dez autores estrangeiros que constam no índice remissivo de colaboradores da Klaxon. O número de colaborações em língua estrangeira é bem maior, pois às vezes um mesmo autor aparece mais de uma vez, havendo também brasileiros que escrevem em francês. Segundo o critério linguístico, há vinte e três colaborações traduzidas em língua estrangeira: duas em espanhol, quatro em italiano, e as demais em francês, não constando, em nenhum destes, o nome do tradutor.

Desde seu primeiro número, Klaxon apresenta a intenção de incluir em suas publicações produções de autores estrangeiros. Quanto a isso, os redatores da revista assim definem o caráter de Klaxon: “KLAXON sabe que a humanidade existe. Por isso é internacionalista. O que não impede que, pela integridade da pátria, KLAXON morra e seus membros brasileiros morram.” (KLAXON, 1922, nº1, p.3) Percebe-se então a pretensão dos klaxistas de representar o atual de forma universalista, sem os limites de fronteiras impostos pelo ufanismo nacionalista. Por outro lado, embora revele, desde o princípio, sua vocação internacionalista, Klaxon não deixa de patentear, em seus artigos, certo patriotismo realista, buscando nem recusar o estrangeiro nem o idealizar, como acontecia no Romantismo, mas antes dar ao nacional uma nova roupagem. A proposta da inauguração de uma nova era é bem nítida nas publicações da revista, que não se preocupa em trazer o novo, mas, o atual, sendo essa “a grande lei da novidade” para seus colaboradores. (KLAXON, 1922, nº1, p. 5). Como afirma Bosi, em Klaxon, foram os experimentos formais do Futurismo, tanto o italiano como o francês (Apollinaire, Cendrars, Max Jacob), que dirigiram a mão dos nossos poetas no momento de invenção artística (BOSI, 2006, p. 341). O atual se revela, em Klaxon, com seus apelos mercadológicos e com os internacionalismos que se destacam nas publicações de poemas, crônicas, ensaios de crítica literária, cinematográfica e musical.
Sobre a projeção internacionalista de Klaxon, Faria afirma que: 

A questão da projeção internacional de Klaxon ainda está por ser inteiramente esclarecida. Segundo podemos 1er na introdução de Mário da Silva Brito à reedição da revista (1972), Menotti del Picchia foi talvez o primeiro que divulgou a idéia da "forte repercussão além fronteiras". E mais adiante: "Rompendo as fronteiras nacionais, foi bater nas portas da França, da Itália e de Portugal".1 Mário da Silva Brito endossa essas afirmações de primeira hora, quando escreve na sua Introdução: "Klaxon teve realmente projeção internacional". 2 Outros críticos, como Afrânio Coutinho na Literatura no Brasil, já vinham repetindo a mesma afirmação (FARIA, 1975).
À Guisa de conclusão
Conforme o anunciado, o presente artigo se propôs a refletir sobre alguns aspectos relacionados ao propósito internacionalista de Klaxon: mensário de arte moderna, primeira revista modernista publicada no Brasil, que se constituiu de nove números, lançados entre 1922-1923. Vale ressaltar, nestas últimas linhas, a importância de se realizar um estudo mais abrangente sobre o assunto, de modo a se comparar, numa perspectiva crítica, os números da revista entre si. Dessa forma, será possível compreender, com maior propriedade, como se cumpre, no conjunto dessas publicações, o propósito internacionalista de Klaxon, já explícito no primeiro número aqui estudado, bem como a relação destas com o primeiro momento modernista.

Referências Bibliográficas
1]           ANDERSON, Benedict. Imperialismo e Nacionalismo oficial In: Comunidades Imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.127-162.
2]           BOSI, Alfredo. Moderno e Modernista In: Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideologia. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34 Ltda, 203, p.209-226.
3]           _______ Pré-Modernismo e Modernismo In: História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006, p.303- 379.
4]           BRITO, Mário da Silva. História do Modernismo Brasileiro: Antecedentes da Semana de Arte Moderna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.
5]           _______ Introdução. Klaxon: mensário de arte moderna. Facsímile. São Paulo: Martins Editora, 1972.
6]           CANDIDO, Antonio. A Educação pela noite e outros ensaios. São Paulo, Ática, 1987.
7]           _______ Iniciação à Literatura Brasileira. São Paulo: Humanitas Publicações - FFLCH/USP,1999.
8]           _______Literatura e Sociedade. 9.ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
9]           COUTINHO, Afrânio. Introdução à Literatura no Brasil.17.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
10]       FARIA, Maria Alice de Oliveira. Klaxon em Marselha. Curitiba: Letras, 1975.
11]       PERRONE-MOISÉS, Leyla. Vira e mexe, nacionalismo: paradoxos do nacionalismo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
12]       TUFANO, Douglas. Estudos de Literatura Brasileira. 3.ed. São Paulo: Moderna, 1983.
Referências da Internet
1]           BRASILIANA USP. KLAXON: mensário de arte Moderna. Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/62/search?order=ASC&sort_by=dc.title. Último acesso em: 08/2012.
2]           CONTIER, Arnaldo Daraya; MARTINI, Carina Macedo; HORN,Karen Alonso et al. Revista “Klaxon”:reflexões sobre o modernismo no Brasil. Disponível em:http://www.mackenzie.br/fileadmin/Pos_Graduacao/Mestrado/Educacao_Arte_e_Historia_da_Cultura/Publicacoes/Volume5/Revista__Klaxon__reflexoes_sobre_o_modernismo_no_Brasil.pdf . Último Acesso em: 08/2012.
3]           LARA, Cecília de. A colaboração estrangeira na revista Klaxon. Disponível em: http://143.107.31.231/Acervo_Imagens/Revista/REV019/Media/REV19-03.pdf . Último acesso em: 10/2012.




[i] Ellen dos Santos OLIVEIRA, Graduanda. Faculdade São Luís de França (FSLF)
 ellenletrinhas@hotmail.com

[ii] Vilma Mota QUINTELA, Profa. Dra., Faculdade São Luís de França (FSLF).  vilmaquintela@yahoo.com.br

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