terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Indícios de etnocídio em O Guarani, de José de Alencar



Indícios de etnocídio em O Guarani, de José de Alencar

Ellen dos Santos Oliveira[1]
Vilma Mota Quintela[2]

Peri tão pouco índio, é fato,
                                                                                         Mas tão brasileiro... Viva,
                                                                                    Viva José de Alencar![3]

RESUMO: O artigo em curso examina aspectos referentes ao processo de assimilação cultural configurado em O Guarani, primeiro romance indianista de José de Alencar. Publicada em 1857, a obra em questão compõe a trilogia indianista do autor, a qual inclui ainda o Ubirajara (1874) e Iracema (1865), principal expoente do indianismo brasileiro. Procura-se aqui demonstrar como, na obra em estudo, a conversão de Peri ao Cristianismo, assim como a renúncia à sua tribo e à sua cultura de origem indiciam, de certa forma, o etnocídio sofrido pelos índios brasileiros à época da colonização. Caberá, neste trabalho, ressaltar como essa prática, hoje reputada à política de dominação cultural da época, é justificada, na narrativa de Alencar, como uma decorrência do amor romântico que o elemento indígena, tornado protagonista, devota à virgem Cecília, personagem representante da cultura dominante. Para tanto, tomar-se-á como referencial teórico, dentre outros, a reflexão de Pierre Clastres acerca do conceito de etnocídio, desenvolvida em seu livro Arqueologia da Violência (2004); estudos de Antonio Candido incluídos nos livros Formação da Literatura Brasileira (1997), O Romantismo no Brasil (2004) e Literatura e Sociedade (2006); e, ainda, as Noções de História das Literaturas (1960), de Manuel Bandeira.

Palavras-chave: José de Alencar.  O Guarani. Etnocídio.

INTRODUÇÃO

Em Noções de História das Literaturas, o poeta e escritor Manuel Bandeira informa que, em 1857, ano de lançamento de O Guarani, romance de estreia de Alencar, essa obra, primeira da série indianista do autor, já fora considerada como uma obra-prima da literatura nacional (BANDEIRA, 1960).  Como sublinha o poeta, nenhum êxito da trajetória literária de José de Alencar superou o sucesso de O Guarani, para Bandeira, livro original em vários aspectos, não obstante tenha dado continuidade à tradição romanesca e idealizadora do Romantismo. Em O Guarani, pela primeira vez, se representava, num romance, a luta entre o povo da terra e os invasores, tendo, como pano de fundo, a natureza brasileira pintada em cores fortes e evocativas do mistério tropical. Bandeira destaca ainda no romance a preocupação evidente com a forma artística.  O autor pernambucano ressalta que Alencar introduziu, com O Guarani, o valor estilístico em nossa prosa de ficção, e assim contribuiu para a conservação de uma ideia de nacionalismo que perdura até os dias atuais, introduzido entre nós pela historiografia literária romântica. Lembra Bandeira que, embora conservador em política, Alencar, que fora adversário da emancipação dos escravos, iniciou no domínio literário e linguístico, com essa obra indianista,  a reação nacionalista a favor das formas brasileiras (Idem). Já em O Romantismo no Brasil, ao tratar da recepção do romance protagonizado pelo índio Peri na época de sua publicação, Antonio Candido conclui que a boa aceitação da obra se deveu, não apenas à escrita poética e empolada característica da produção da época; mas, sobretudo, ao sentimentalismo e a certo “heroísmo rutilante” próprio do caráter romanesco da narrativa. Partindo-se desses dois referenciais teóricos, que destacam a notável recepção do romance pelo público da época,  espera-se, no presente artigo,  sublinhar as relações históricas validadas pela noção implícita na representação do índio brasileiro como um herói nacional, pontuada pelos dois críticos.
Como se pode observar, no romance,  o estatuto do herói nacional, atribuído ao autóctone, legitima-se a partir do jogo da  dominação cultural,  em que o ritual da submissão entra como principal elemento significativo.   Ou seja, a entronização do herói nacional se dá apenas quando Peri se submete à cultura do colonizador, representada por Cecilia e sua família, sendo essa última quem leva Peri a essa conversão. Ele, índio chefe da nação Goitacá; ela, moça de pele alva, cabelos loiros e olhos azuis como o céu, correspondendo, a descrição de Ceci, à imagem da Virgem Maria consagrada pela iconografia ocidental. Dessa forma, por analogia, o índio, antes pleno no seio de uma cultura pagã, passará a devotar à moça, símbolo delicado e singelo da dominação branca, a vassalagem amorosa e cultural que endossará a vitória moral do colonizador:
O amor que Peri sentia era uma adoração, um culto, espécie de idolatria fanática, na qual não entrava um só pensamento de egoísmo; amava Cecília não para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar‑se inteiramente a ela, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar que a moça tivesse um pensamento que não fosse imediatamente uma realidade (ALENCAR, p. 33).

Assim, a partir desse processo, Peri não representará mais o outro ameaçador, o selvagem buscado e rebuscado pela imaginação romântica ocidental, mas, antes, o espírito colonialista que, paradoxalmente, a ideologia romântica buscava rechaçar. A propósito, quanto a isso, vale conferir o discurso de D. Antonio Mariz que melhor encarna, na obra, a figura do colonizador português:
— Não há dúvida, disse D. Antônio de Mariz, na sua cega dedicação por Cecília quis fazer‑lhe a vontade com risco de vida. É para mim uma das coisas mais admiráveis que tenho visto nesta terra, o caráter desse índio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua vida tem sido um só ato de abnegação e heroísmo. Crede‑me, Álvaro, é um cavalheiro português no corpo de um selvagem! (ALENCAR, p. 28, grifo nosso)
Como se pode ver, no trecho destacado, ressalta-se a dualidade corpo-espírito, de acordo com a qual o corpo representa a cultura do colonizado e, o espírito, o ímpeto colonizador português. Ou seja, quando se trata de Peri, destaca-se a representação do corpo, e não da cultura, associada ao espírito, no caso de Peri, sacrificado por amor a Ceci. Essa morte, marcada pela submissão voluntária do elemento indígena, será, pois, o objeto de análise deste artigo, considerando-se aqui, dentre outras coisas, a conversão de Peri ao Cristianismo como uma forma de etnocídio. Para tanto, antes de mais nada, proceder-se-á a breves considerações sobre o termo, tendo-se em vista situá-lo terminologicamente, tal como é apresentado por Pierre Clastres, em Arqueologia da Violência (2004).

ETNOCÍDIO E LITERATURA

Pierre Clastres, no livro mencionado, situa o etnocídio como sendo um termo surgido recentemente para “satisfazer uma necessidade de precisão terminológica”, porém, a “utilização da palavra ultrapassou ampla e rapidamente seu lugar de origem, a etnologia, para cair de certo modo no domínio público.” Segundo o autor, esta nova palavra estava destinada a traduzir uma realidade que nenhum outro termo exprimia. Justificando que o genocídio, palavra de uso difundido há muito mais tempo, já era considerada inadequada ou imprópria a cumprir essa nova exigência:

[...] o termo etnocídio aponta não para a destruição física dos homens (caso em que se permaneceria na situação genocida), mas para a destruição de sua cultura. O etnocídio, portanto, é a destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de povos diferentes daqueles que empreendem essa destruição. (CLASTRES, 2004, p.56, grifo nosso)


Nesse sentido, genocídio e etnocídio têm em comum o sentido de destruição ou morte. Contudo, no primeiro caso, trata-se da morte carnal ou física, e, no segundo, da morte espiritual ou da cultura.  Assim, etnocídio pode ser traduzido como destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de povos diferentes daqueles que empreendem essa destruição. No caso estudado, o etnocídio consiste no processo de supressão da indianidade tendo-se em vista a invenção do cidadão brasileiro, muito embora, na perspectiva de seus agentes, o extermínio não seja assumido, propriamente, como etnocídio. Trata-se, ao contrário, como afirma Clastres (idem) de uma tarefa necessária, exigida pelo humanismo inscrito no núcleo da cultura ocidental. Em O Guarani a prática do etnocídio justifica-se pelo princípio do amor romântico, traduzido na devoção quase religiosa que Peri sente pela virgem Cecilia, a quem ele, carinhosamente, chama de Ceci, que na língua indígena corresponde ao verbo “doer” ou “magoar”.
Cumpre ressaltar que, na narrativa heroica e romântica envolvendo Peri e Cecília, o índio irá assumir a posição do servo amoroso das cantigas medievais. Tal como se idealiza na prática do amor cortês, o protagonista passará a idolatrá-la como se fosse a imagem da virgem sagrada. Apresentando a face doce da dominação cultural, Ceci lhe ordenará, em princípio, que o índio aceite como sua a casa de seus pais e, assim, abandone a própria tribo. Uma vez, ao lado da família Portuguesa, vivendo em função de um amor platônico, o índio se afastará, irreversível e gradativamente, de sua cultura original. Assim, o amor de Peri por Ceci e a força sobre-humana que ela exerce sobre ele a transformara em uma etnocida institucional.
ETNOCÍDIO EM O GUARANI
Segundo Clastres, “o etnocida admite a relatividade do mal na diferença: os outros são maus”. Em O Guarani os maus são representados pelos considerados selvagens e vingativos Aimorés, que colocavam em risco, a vida de Ceci e sua família. Na visão do narrador, que se identifica ou, pelo menos, simpatiza com a visão do colonizador, apesar de serem maus, os Aimorés poderiam vir a ser convertidos, como aconteceu com Peri. Mas para isso, seria necessário algo que desencadeasse a mudança. No caso de Peri, o amor incondicional é o grande estandarte da mudança consentida.  Em função desse amor, Peri está disposto a matar não somente a sua cultura, como também o próprio corpo, tal como se observa no diálogo a seguir:
— Ceci desejou ver uma onça viva! [...]— Quando Ceci acha bonita uma flor, Peri não vai buscar? [...]— Quando Ceci ouve cantar o sofrer, Peri não o vai procurar? [...]— Pois Ceci desejou ver uma onça, Peri a foi buscar (ALENCAR, 1999,  p.26)
— Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciência, se eu te pedisse aquela nuvem?...  [...]— Peri ia buscar. [...] — Somente como a nuvem não é da terra e o homem não pode tocá‑la, Peri morria e ia pedir ao Senhor do céu a nuvem para dar a Ceci. (idem, p. 36)
Em função desse amor exacerbado e idealizado será legitimado o etnocídio do índio Peri. A prática etnocida, na narrativa, se constitui a partir de dois eventos, que definem a destruição da identidade cultural de Peri, quais sejam: o abandono da tribo e a assimilação linguística e cultural.  Como afirma Antônio Candido, dentre outras coisas, José de Alencar abordou a questão da identidade pelo aspecto fundamental da linguagem (CANDIDO, 2004). Em O Guarani, a propósito, o processo etnocida começa com a supressão da fala original do índio, que aos poucos substituirá o dialeto indígena pelo português. A propósito, já no primeiro contato entre Peri e a família de Cecília, ocorrido quando a jovem é salva da morte por um ato heroico do índio, ressalta-se a alteridade linguística do protagonista, como se vê no trecho a seguir:
Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave painel que formava esse grupo de família.
De repente, entre o dossel de verdura que cobria esta cena, ouviu-se um grito vibrante e uma palavra de língua estranha:
— Iara!
É um vocábulo guarani: significa a senhora.  (p.65)
E mais adiante:
Por fim D. Antônio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha, caminhou para o
selvagem e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e afável; o índio curvou-se e beijou a mão do
fidalgo.
— De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarani.
— Goitacá, respondeu o selvagem erguendo a cabeça com altivez.
— Como te chamas?
— Peri, filho de Ararê, primeiro de sua tribo.
— Eu, sou um fidalgo português, um branco inimigo de tua raça, conquistador de tua terra;
mas tu salvaste minha filha; ofereço-te a minha amizade.
— Peri aceita; tu já eras amigo.
— Como assim? perguntou D. Antônio admirado.
— Ouve.
O índio começou, na sua linguagem tão rica e poética, com a doce pronúncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves das florestas virgens, esta simples narração (...) ( p. 68 ).


 Por ordem de Cecília, Peri abandona a vida ao lado de seu povo, a sua casa e a sua mãe, para viver uma vida de servidão e renúncia. Pela jovem o índio deixa sua tribo para viver na casa do colonizador. A ordem dada, contudo, não é o resultado de um amor correspondido, mas sim fruto da gratidão e do estranho prazer de ordenar, tal como fica expresso. Ao amor incondicional de Peri, Cecília opõe, inicialmente, repugnância, ingratidão e antipatia, sentimentos que serão superados após três meses de convivência com o herói:
Passaram três meses.
Cecília que um momento conseguira vencer a repugnância que sentia pelo selvagem, quando lhe ordenara que ficasse, não se lembrou da ingratidão que cometia e não disfarçou mais a sua antipatia.
Quando o índio chegava‑se a ela, soltava um grito de susto; ou fugia, ou ordenava‑lhe que se retirasse; Peri que já falava e entendia o português, afastava‑se triste e humilde. (ALENCAR, 1999, p.77, grifo nosso)
Não obstante, embora tivesse incorporado os hábitos do cavalheiro português, Peri lembrava-se, com certo saudosismo, de sua condição original, “de sua tribo, de seus irmãos que ele havia abandonado há tanto tempo, e que talvez àquela hora fossem também vitimas dos conquistadores de sua terra” (idem, p. 51). No entanto, as lembranças de seu povo e de sua tribo não eram suficientes para fazê-lo retornar aos seus, pois o único sentimento de “pertença” que lhe restava ligava-se ao seu vínculo emocional com Cecília: “— Peri só ama o que a senhora ama; porque só ama a senhora neste mundo: por ela deixou sua mãe, seus irmãos e a terra onde nasceu” (idem, p.85).
A propósito, vale observar o triângulo estabelecido entre o protagonista, sua mãe, a personificação da cultura autóctone, a quem Peri abandona por Ceci, por sua vez, a personificação  da Virgem que o herói vira em meio a um combate contra a tribo inimiga:
A pobre mãe recebeu esta palavra como uma sentença irrevogável; sabia do império que exercia sobre a alma de Peri a imagem de Nossa Senhora, que ele tinha visto no meio de um combate e havia personificado em Cecília.
Sentiu que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha sido o orgulho de sua mocidade. Uma lágrima deslizou pela sua face cor de cobre.
— Mãe, toma o arco de Peri; enterra junto dos ossos de seu pai: e queima a cabana de Ararê.
— Não; se algum dia Peri voltar, achará a cabana de seu pai, e sua mãe para amá-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flores leve o filho de Ararê ao campo onde nasceu.
Peri abanou a cabeça com tristeza:
— Peri não voltará! (ALENCAR, 1999, p.76)
Cumpre por fim ressaltar a relação entre colonização e cristianização tal como esta se configura na narrativa de Alencar.  Nesse caso, aculturar-se corresponde a cristianizar-se, sendo uma coisa condição sine qua non da outra. Revive-se, assim, no romance, o mesmo argumento que justificou a expansão ultramarina e o consequente processo de colonização portuguesa, sendo, em O Guarani, a conversão à religião do colonizador, o bem do amor com que Peri será recompensado. As boas intenções de Ceci, no entanto, não deixam de expressar a atitude etnocida aí subjacente:
Educada no fervor religioso de sua mãe, embora sem os prejuízos que a razão de D. Antônio corrigira no espírito de sua filha, Cecília tinha a fé cristã em toda a pureza e santidade. Por isso se afligia com a idéia de que Peri, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ela dirigia suas preces. (ALENCAR, 1999, p.124)
E, na sequência:
Conhecia que a razão, por que sua mãe e os outros desprezavam o índio, era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o amigo e torná‑lo digno da estima de todos. Eis a razão por que ficara triste; era a gratidão por Peri, que defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ela queria retribuir salvando a sua alma. (ALENCAR, 1999, p.124)
Para Clastres, o espaço no qual se destacam o espírito e a prática etnocidas é determinado segundo duas sentenças. A primeira proclama a hierarquia das culturas: há as que são inferiores e as que são superiores. A segunda endossa a superioridade absoluta da cultura ocidental. Sendo assim, a cultura dominante só pode manter com as outras e, em particular, com as culturas primitivas, uma relação de negação. Trata-se, no entanto, de uma negação positiva, no sentido de que ela intenciona suprimir o inferior enquanto inferior para içá-lo ao nível do superior. Como se observa, Cecília encarna a atitude e o pensamento do colonizador, na medida em que submete o objeto de sua apreciação afetiva à total negação cultural. Durante a narrativa, Peri expressa bem à recusa de atender ao desejo etnocida de sua amada. Esta recusa tinha uma única razão, como se pode notar neste recorte da conversa entre Peri e Ceci:
— Tu não entendeste Peri, senhora; Peri te pediu que o deixasses na vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir‑te.
— Como?... Não te entendo!
— Peri, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma religião, é sua senhora; Peri, cristão, será o último dos teus; será um escravo, e não poderá defender‑te.
— Um escravo!... Não! Serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina com vivacidade.
O índio sorriu:
— Se Peri fosse cristão, e um homem quisesse te ofender, ele não poderia matá‑lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate outro. Peri selvagem não respeita ninguém; quem ofende sua senhora é seu inimigo, e, morre!
Cecília, pálida de emoção, olhou o índio, admirada não tanto da sublime dedicação, como do raciocínio; ela ignorava a conversa que o índio tivera na véspera com o cavalheiro.
— Peri te desobedeceu por ti somente; quando já não correres perigo, ele virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe deste. Não fica zangada! (ALENCAR, p. 125)

O cumprimento da promessa de conversão se dá no instante em que Cecília se vê ameaçada de morte pelos Aimorés, elevando-se, assim, a conversão de Peri ao cristianismo a um ato heroico.
D. Antônio, vendo a resolução que se pintava no rosto do selvagem, tornou‑se ainda mais pensativo; quando, passado esse momento de reflexão, ergueu a cabeça, seus olhos brilhavam com um raio de esperança.
Atravessou o espaço que o separava de sua filha, e, tomando a mão de Peri, disse‑lhe com uma voz profunda e solene:
— Se tu fosses cristão, Peri!...
O índio voltou‑se extremamente admirado daquelas palavras.
— Por quê?... perguntou ele.
— Por quê?... disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses cristão, eu te confiaria a salvação de minha Cecília, e estou convencido de que a levarias ao Rio de Janeiro, à minha irmã.
O rosto do selvagem iluminou‑se; seu peito arquejou de felicidade; seus lábios trêmulos mal podiam articular o turbilhão de palavras que lhe vinham do intimo da alma.
— Peri quer ser cristão! exclamou ele.
D. Antônio lançou‑lhe um olhar úmido de reconhecimento.
— A nossa religião permite, disse o fidalgo, que na hora extrema todo o homem possa dar o batismo. Nós estamos com o pé sobre o túmulo. Ajoelha, Peri!
O índio caiu aos pés do velho cavalheiro, que impôs‑lhe as mãos sobre a cabeça.
— Sê cristão! Dou‑te o meu nome.
Peri beijou a cruz da espada que o fidalgo lhe apresentou, e ergueu‑se altivo e sobranceiro, pronto a afrontar todos os perigos para salvar sua senhora. (ALENCAR, 1999, p. 204)
Dessa forma, o índio terá, finalmente, não somente a alma de um cavalheiro português, como também o nome, isto é, o nome que lhe dá por empréstimo o colonizador:
— Tu és cristão, Peri?... exclamou a menina, cujos olhos brilharam com uma alegria inefável.
— Sim; teu pai disse: “Peri, tu és cristão; dou‑te o meu nome!”
— Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os olhos ao céu. (idem, p. 210)


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como posto por Pierre Clastres, o etnocídio “é a supressão das diferenças culturais julgadas inferiores e más” e seu empreendimento “é a aplicação de um princípio de identificação, de um projeto de redução do outro ao mesmo”. Isto é, nas palavras de Clastres “o etnocídio resulta na dissolução do múltiplo no Um” (CLASTRES, 2004, p.59).  Como se procurou mostrar, no caso do romance estudado, o etnocídio se institui a partir de dois processos estruturantes: a renúncia e a assimilação cultural. Tais eventos apontam para a perda do sentimento de “pertencimento” cultural, que, no caso, é substituído pela condição cativa do pertencimento espiritual ao outro que encarna a posição do dominador. Para Peri, a negação cultural é um sacrifício necessário à prática do amor romântico, incondicional, que ele nutre pelo seu outro espiritual. Para Ceci, em contrapartida, o etnocídio é um meio positivo de elevar Peri à condição de igual perante a ideia de Deus cristã, tal como se observa no fragmento abaixo, com que, finalmente, encerra-se a presente reflexão:

— Tu viverás!...
Cecília abriu os olhos, e vendo seu amigo junto dela, ouvindo ainda suas palavras, sentiu o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.
— Sim?... murmurou ela: viveremos!... lá no céu, no seio de Deus, junto daqueles que amamos!...
O anjo espanejava‑se para remontar ao berço.
— Sobre aquele azul que tu vês, continuou ela, Deus mora no seu trono, rodeado dos que o adoram. Nós iremos lá, Peri! Tu viverás com tua irmã, sempre...!(ALENCAR, 1999, p.225)


REFERÊNCIAS


ALENCAR, José de. O Guarani. São Paulo: Ateliê, 1999.

BANDEIRA, Manuel. Noções de História das Literaturas. 5.ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura S.A., 1960.

BANDEIRA, Manuel. Sextilhas Românticas. In. Literatura Comentada: seleção de textos, notas, estudos biográficos, histórico e crítico por Selete de Almeida Cara. 2.ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

CLASTRES, Pierre. Do Etnocídio. In. Arqueologia da violência: pesquisas de antropologia política. Cosac & Naify, 2004. Trad. de Paulo Neves.

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. 8.ed. Rio de Janeiro: Editora Itatiaia Limitada, 1997.

CANDIDO, Antonio. O Romantismo no Brasil. 2.ed. São Paulo : Humanitas / FFLCH, 2004.


CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9.ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.



[1] Graduada no Curso de Letras da Faculdade São Luís de França-FSLF, onde atuou como monitora e desenvolveu iniciação científica na área da Teoria Literária. É integrante do NEC (Núcleo de Estudos de Cultura da UFS) e é Pós-Graduanda em Cultura e Literatura pela UNICID (Universidade Cidade de São Paulo). E-mail: ellenletrinhas@hotmail.com
[2] Doutora na linha de pesquisa Teorias e Crítica da Literatura e da Cultura. Atua como professora do Curso de Letras da FSLF. E-mail: vilmaquintela@yahoo.com.br
[3] Ver BANDEIRA, 1988, p. 17.

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