sábado, 26 de julho de 2014

Conto: Novo de novo!



Ellen Oliveira

Era segunda feira. Primeiro dia de aula do ano letivo. Jaqueline Derrida já estava cursando a segunda série. Parecia que era ontem que esta chegava à escola para cursar o Jardim de Infância. A menina estava ansiosa para estudar, pois não via a hora de usar os livros novos que seu tio Alberto havia comprado para ela. A mãe de Jaqueline, Dona Eliza, era mãe solteira e seu irmão por ter uma situação financeira melhor a ajudava. Só que para a ajuda chegar Dona Eliza precisava pedir e pedir muito, e ficar lembrando a ele do pedido.
Seu Alberto era um homem muito ocupado, pois tinha um supermercado para administrar e por isso sempre acabava esquecendo-se desses pequenos detalhes. Parece que ele gostava muito de ajudar a irmã, pois quando fazia isso ficava tão orgulhoso de si que contava para todos que conhecia, e todos compartilhavam a atitude dele sempre o elogiando pelo seu bom coração. A fama que acabava adquirindo lhe enchia o ego. Para ele era uma vitória imensa poder ajudar a irmã, pois durante a sua infância havia passado por muitas privações e por isso sentia-se um vencedor na vida.
Jaqueline estava muito ansiosa para usar os livros comprados pelo tio, principalmente o de português que era seu favorito. Adorava as histórias contidas no livro e dizia que quando crescesse iria escrever um livro bem bonito e cheio de histórias engraçadas.
No primeiro dia de aula Jaqueline ficou conhecendo sua professora. Ela se chamava Maria e dizia que poderiam chamá-la de tia. Isso confundia um pouco a cabeça da menina, pois apesar de ser hábito chamar as professoras de tias ela não conseguia compreender o porquê? Afinal,  a professora não era nem irmã de sua mãe e nem do seu pai, pensava a menina. Mas, para não contrariar ninguém ela evitava perguntar sobre o motivo de ter que a chamar assim, pois ela lembrava que uma vez fizeram essa pergunta a sua antiga professora e ela ficou gaguejando, sem saber o que responder e por isso evitava tocar no assunto.
Depois de explicar o primeiro assunto do dia, a professora pediu às crianças que respondessem o exercício do livro. Tal ordem era muito esperada por Maria, pois ela havia sido proibida pela mãe de riscar o livro antes que a professora mandasse. Maria começou a responder a primeira atividade do livro, e achou muito fácil. Como havia acabado logo com a tarefa, a menina com ares de esperta, começou a fazer o exercício da próxima página o qual também achou muito fácil. E assim ela ia respondendo compulsivamente às atividades do livro.
Passada uma semana de aula, Jaqueline já havia respondido a todas as atividades do livro de Português. Durante as aulas, enquanto os outros respondiam as atividades, Jaqueline ficava observando a turma, sem ter o que fazer, pois já havia feito todas as lições. A professora notando que Jaqueline não fazia nada foi até ela pegando-lhes seu livro percebeu que este já estava todo respondido. Sua reação não foi das melhores:
- Jaqueline, quem deu ordens para você fazer todas as atividades do livro?
Diante da pergunta a menina ficou paralisada, feito uma estátua e não sabia o que responder. A professora vendo que a menina não respondia, continuou:
- Mal começamos o ano... quero ver o que vou passar para você agora! Quando sua mãe vier lhe buscar diga a ela que venha aqui que quero falar-lhe.
Quando a mãe foi buscar a filha na escola, a menina deu o recado. Surpresa foi saber o que a filha havia aprontado, e quando chega diante da professora essa lhe diz mostrando e folheando o livro:
- D. Eliza, olhe o que sua filha fez!
Diz a professora mostrando o livro todo respondido para a mãe, e depois continuou a falar:
- Ela acabou com o livro! Não sei mais o que vou passar para ela... pois ela já respondeu tudo!
A mãe, sem saber o que dizer, responde:
- É mole... vou conversar com ela ... ela vai ficar de castigo!
A professora fala:
- Olha... A única solução é pedir que ela apague todas as respostas... Depois ela irá responder tudo de nova, mas no tempo certo, igual a todos os outros alunos... Só assim ela poderá acompanhar a turma...
A mãe, concordando com a ideia, responde:
- Vou mandá-la fazer isso!
Chegando à casa a mãe disse à filha:
- Jaqueline, quem mandou você fazer isso no livro? Ainda temos o ano todo pela frente e você já acabou com o livro desse jeito.... Eu não tenho dinheiro pra comprar livro, não!
A menina calada, não sabia o que responder. A mãe então ordena:
- Anda... Pegue a borracha e apague todas as respostas... Deixe só aquelas que a professora mandou você fazer... o resto apague tudo... depois você irá responder igual a todos os outros alunos...
Jaqueline apagava tudo calada. Parecia triste e inconformada, como se não compreendesse o que havia feito de errado. E achava um desperdício ter que apagar todo aquele conhecimento produzido, mas ordem é ordem e deve ser cumprida. E assim ela cumpria a que foi lhe dada.
 Quando terminou de apagar tudo que havia respondido a menina ficou até mais alegrinha ao perceber que o livro parecia quase novo de novo, e pensava que talvez não causasse problema se ela repetisse o feito, pois era só apagar de novo e pronto, e ninguém precisava ficar sabendo. Era só ela e o livro. E assim deu início a uma relação de cumplicidade entre ela e a seu livro de português. Em seu íntimo, Jaqueline Derrida pensava que, à medida em que construía e desconstruía todas as respostas, o livro ficava sempre novo de novo.




-

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre os Direitos Autorais

Em obediência à Lei 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais), qualquer informação deste BLOG poderá ser reproduzida desde que citada a fonte. Quem assim não o fizer, poderá ser penalizado de acordo com o artigo 184 do CÓDIGO DE PROCESSO PENAL em vigência.

Blogs que Colaboro