segunda-feira, 27 de outubro de 2014

CONTO: O DUELO DOS VAMPIROS




O DUELO DOS VAMPIROS

Ellen Oliveira

Era por volta do ano de 1024. Quando se passou essa história que vou contar. Trata-se de um duelo travado entre dois vampiros que almejam ocupar o trono e reinar por quatro anos em Pua Libras, um reino cuja população atual era composta por vampiros. Porém, nem sempre foi assim.   
Há mais ou menos 514 anos os habitantes de Pua Libras eram todos humanos e não havia um único vampiro sequer, até a chegada da caravana conduzida pelos Vampiros Álvares. Conforme narra os livros de história, os Álvares estavam de passagem quando avistaram as terras de Pua Libras, pois iam à Dínia comercializar sangue humano negro para a sua castra que por sinal adorava esse tipo sanguíneo.
O comércio sanguíneo crescia a cada dia, pois os vampiros, por precaução evitavam atacar as pessoas e serem pegos por caçadores. Estava em uma época em que várias pessoas acabaram aderindo à profissão de caçadores de vampiros muitas vezes a fim de vingar por si ou por um familiar ou amigo que fora violentamente transformado em vampiro.
O comércio sanguíneo também estava sendo visto como uma política inteligente, pois se por um lado evitava a proliferação de vampiros, por outro lado também evitava a sua extinção. Além disse evitava a extinção da raça humana, uma vez que as pessoas eram convidadas a doarem seus sangues voluntariamente ao invés de serem mordidas e transformadas em vampiros.
Para os vampiros essa prática de doação de sangue também era proveitosa, apesar do fato do sangue armazenado não ser tão saboroso quanto o sangue fresco, pois permitiam a eles a possibilidade de beber o sangue de uma pessoa várias vezes e não gastá-lo em uma única mordida. Uma vez que a pessoa, permanecendo com o sangue puro e livre da infecção, que a transformaria em um vampiro, continuaria sendo uma espécie de fábrica viva de sangue humano, o alimento dos vampiros.
Quando os Álvares chegaram a Pua Libras, decidiram ficar e reinar nas terras que, segundo eles, era desconhecida, com o passar do tempo não conseguiram resistir a seus instintos inumanos e acabaram dizimando toda a população que acabou sendo transformada em vampiros.
Os Álvares representavam a classe da elite nobre dos Vampiros. Pra quem não sabe, entre os vampiros há duas classes quanto à sua origem: os vampiros nobres, que corresponde àqueles que já nasceram vampiros, descendentes de vampiros; e os vampiros frouxos, que são aqueles que nasceram humanos e foram transformados em vampiros.  E era assim que o reino estava dividido, entre vampiros nobres e vampiros frouxos.
Sem ter mais a quem atacar, já que toda a população havia sido transformada em vampiros, eles decidiram voltar a comercializar sangue humano.
Por isso chegava em Pua Libras doações de Sangues de outros reinos vizinhos, porém a classe nobre detinha a maior parte deles para a sua gente, para àqueles considerados Vampiros de sangue nobre, pois defendiam com garras e dentes que a sua espécie era rara e por isso deveria ser preservada. Enquanto isso, aos vampiros frouxos, que ainda temiam ir contra os nobres, restavam contentar-se com o que sobrava e era vendido a altos preços pelos comerciantes locais. Essa situação acabou gerando uma crise de fome e morte entre os vampiros frouxos que ficaram marginalizados, o que desencadeou uma grande revolta entre a população vampírica.
Por 502 anos o Reino estava sendo governado pela classe elitista de Vampiros nobres. Durante esse período, a crise de fome e a taxa de mortalidade entre os vampiros frouxos só aumentavam. Somente nos últimos doze anos quando esses conseguiram que seu representante vencesse o duelo, que o elevou ao trono, que a situação deles começou a mudar.
Nos últimos doze anos conseguiram elaborar e por em prática uma campanha intitulada “sangue para todos” que causou a redução do número de vampiros famintos e com isso a taxa de mortalidade também diminuiu. Tal campanha estipulava uma quantidade de sangue para ser distribuída gratuitamente entre os vampiros, além dos que ainda eram comercializados. Com essa política os vampiros nobres sentiram as consequências, pois não aceitavam receber a mesma quantidade limitada de sangue que os demais vampiros ou terem que pagar por mais sangue, assim como qualquer outro habitante de Pua Libras. Isso indignava a classe nobre dos vampiros, pois estava acostumada a usufruir de uma quantidade bem maior de sangue e totalmente gratuita. Por isso a classe nobre dos vampiros indicou seu representante para o duelo, Neve Ceasio.
Neve Ceasio, era um membro importante de sua classe, e considerava-se privilegiado geneticamente por ser um descendente, mesmo que distante, dos Álvares. Era conhecido pelo seu jeito frio e calculista de resolver qualquer situação. Por isso seus aliados viam nele um bom candidato de vencer o duelo e destronar o atual governo.
Atualmente o Reino estava sendo governado por uma vampira frouxa Dalim Flossuer, considerada pelos frouxos uma guerreira ousada que sempre lutou pelo seu povo que, assim como ela, viviam das migalhas dos poderosos.  Apesar de ter sido transformada naquele monstro, parece que ainda conservara em seu coração algo de humano. Por esse motivo a população frouxa decidiu indicá-la ao grande duelo, para que, caso ela vencesse continuasse governando Pua Libras e dando continuidade ao trabalho que até então vinha desenvolvendo.
Neve Ceasio e Dalim Flossuer haviam sido indicados pelas duas classes de vampiros para se enfrentarem no grande duelo, cujo vencedor reinaria por mais quatro anos em Pua Libras.
O grande duelo era uma grande luta entre os dois vampiros candidatos ao trono, aquele que conseguisse arrancar a cabeça do adversário seria o novo Rei ou a nova Rainha.
Era o dia do grande duelo e estavam todos na Arena principal de Pua Libras. Os dois vampiros se preparavam vestindo suas melhores armaduras e pensando nas melhores estratégias de ataque. Ambos eram muito astutos e possuíam habilidades em manejar as armas, pois foram treinados durante seis meses para o grande duelo. Porém, fisicamente, Neve possuía aparentes vantagens sobre Dalim, pois ele tinha uma estatura maior que a dela, em relação ao peso e altura, mas Dalim havia se preparado bastante para aquele dia e também já havia vencido um duelo há quatro anos, e contava com sua experiência na arena.
A arena estava lotada de vampiros e todos gritavam a favor de seu representante. O público dividia-se em duas partes. De um lado, os vampiros frouxos entoavam em alto coro:
- Dalim, Dalim, Dalim, Dalim...!
Do outro lado, ouvia-se em coro a manifestação dos vampiros nobres e comerciantes locais:
- Neve, Neve, Neve, Neve...!
Quando o relógio da Catedral avisou que era meia noite, foi dado início ao duelo. No centro da arena estavam os dois duelistas. Ambos tinham a fúria manifesta em seu rosto e os dentes afiados e ameaçadores prontos para atacarem.
Os dois vampiros se encaravam enfurecidos e desejosos da vitória, mas ficaram ambos ali parados por alguns segundos, como quem analisando e esperando que o adversário investisse em um ataque, até que Neve tomou a atitude e avançou contra Dali com sua espada.
Dalim, rapidamente, introduzindo a mão, protegida por luvas, no alforje que trazia na cintura, tirou dali um pedaço de prata e com a ajuda de uma atiradeira punhal a atirou em seu adversário. Ao ser atingindo na testa pela pedra de prata, o vampiro Neve, sentindo sua testa queimar, caiu de joelhos tentando desencravar a prata em sua testa que queimava e derretia sua pele fria.
Dalim, ao perceber a fraqueza que causara em seu adversário com aquele golpe, imediatamente desembainhou a espada e cortou a cabeça do vampiro.
Foi assim que pela segunda vez Dalim vencera o duelo que a elevaria novamente ao trono de Pua Libras.
Os vampiros nobres ao perceberem que era morto o seu representante se recolheram insatisfeitos com vitória de Dalim. Já os vampiros frouxos, ao perceber que sua representante pela segunda vez fora a heroína do duelo, ficaram felizes e até aliviados, pois acreditavam que, ao menos, por mais quatro anos não morreriam de fome.

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