quinta-feira, 23 de julho de 2015

POESIA DO DIA: Profissão de fé, de Olavo Bilac

Bom dia, leitores!

O poema que selecionei para hoje foi o “Profissão de fé”, de nosso parnasiano  Olavo Bilac!

                    Profissão de Fé
                    (Olavo Bilac)


Não quero o Zeus Capitolino
Hercúleo e belo,
Talhar no mármore divino 
Com o camartelo.

Que outro - não eu! - a pedra corte 
Para, brutal,
Erguer de Atene o altivo porte 
Descomunal.

Mais que esse vulto extraordinário, 
Que assombra a vista,
Seduz-me um leve relicário 
De fino artista.

Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo 
Faz de uma flor.

Imito-o. E, pois, nem de Carrara 
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara, 
O ônix prefiro.

Por isso, corre, por servir-me, 
Sobre o papel
A pena, como em prata firme 
Corre o cinzel.

Corre; desenha, enfeita a imagem, 
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem 
Azul-celeste.

Torce, aprimora, alteia, lima 
A frase; e, enfim, 
No verso de ouro engasta a rima, 
Como um rubim.

Quero que a estrofe cristalina, 
Dobrada ao jeito 
Do ourives, saia da oficina 
Sem um defeito:

E que o lavor do verso, acaso, 
Por tão subtil,
Possa o lavor lembrar de um vaso 
De Becerril.

E horas sem conto passo, mudo, 
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo 
O pensamento.

Porque o escrever - tanta perícia, 
Tanta requer,
Que oficio tal... nem há notícia 
De outro qualquer.

Assim procedo. Minha pena 
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena, 
Serena Forma!

Deusa! A onda vil, que se avoluma 
De um torvo mar,
Deixa-a crescer; e o lodo e a espuma 
Deixa-a rolar!

Blasfemo> em grita surda e horrendo 
Ímpeto, o bando
Venha dos bárbaros crescendo, 
Vociferando...

Deixa-o: que venha e uivando passe
- Bando feroz!
Não se te mude a cor da face 
E o tom da voz!

Olha-os somente, armada e pronta, 
Radiante e bela:
E, ao braço o escudo> a raiva afronta 
Dessa procela!

Este que à frente vem, e o todo 
Possui minaz
De um vândalo ou de um visigodo, 
Cruel e audaz;

Este, que, de entre os mais, o vulto 
Ferrenho alteia,
E, em jato, expele o amargo insulto 
Que te enlameia:

É em vão que as forças cansa, e â luta 
Se atira; é em vão
Que brande no ar a maça bruta 
A bruta mão.

Não morrerás, Deusa sublime! 
Do trono egrégio
Assistirás intacta ao crime 
Do sacrilégio.

E, se morreres por ventura, 
Possa eu morrer
Contigo, e a mesma noite escura 
Nos envolver!

Ah! ver por terra, profanada, 
A ara partida
E a Arte imortal aos pés calcada, 
Prostituída!...

Ver derribar do eterno sólio 
O Belo, e o som
Ouvir da queda do Acropólio, 
Do Partenon!...

Sem sacerdote, a Crença morta 
Sentir, e o susto
Ver, e o extermínio, entrando a porta 
Do templo augusto!...

Ver esta língua, que cultivo, 
Sem ouropéis,
Mirrada ao hálito nocivo 
Dos infiéis!...

Não! Morra tudo que me é caro, 
Fique eu sozinho!
Que não encontre um só amparo 
Em meu caminho!

Que a minha dor nem a um amigo 
Inspire dó...
Mas, ah! que eu fique só contigo, 
Contigo só!

Vive! que eu viverei servindo 
Teu culto, e, obscuro,
Tuas custódias esculpindo 
No ouro mais puro.

Celebrarei o teu oficio 
No altar: porém,
Se inda é pequeno o sacrifício, 
Morra eu também!

Caia eu também, sem esperança, 
Porém tranqüilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança, 
Em prol do Estilo!


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