domingo, 9 de agosto de 2015

CONTO: "O Pai", de Ellen Oliveira

O PAI


Ellen Oliveira


Depois de mais um passeio no parque com o pai, Danielle estava tão feliz que sentia como se estivesse sonhando um sonho tão lindo do qual não queria acordar. O Pai, seu Manoel, morava em Campo Limpo Paulista, interior de São Paulo e raramente podia visitar os filhos em Aracaju. Antes vinha uma vez por ano, mas com o passar do tempo as visitas foram ficando mais raras. Já havia mais de dois anos que pai e filhos não se viam, pois seu Manoel não conseguia folga no trabalho para poder viajar. Ele trabalhava como caseiro em uma chácara no bairro Figueira Branca.

O caseiro, imigrante de Lage, interior da Bahia, estava na capital paulista há mais de dez anos, mas ainda não tinha casa própria, no entanto por causa dos serviços prestados sempre morava bem, ao menos enquanto tivesse empregado já que morava no local de trabalho, que por sinal eram, na maioria das vezes, chácaras e sítios. Quando ele e a mãe das crianças, Dona Enedina, se conheceram ela trabalhava como empregada doméstica em uma dessas chácaras de São Paulo. Ela, de Aracaju, havia fugido da tirania do pai, seu José Alvares. Depois de casados, vieram as crianças e as dificuldades em São Paulo que os levaram a morar em uma favela em Diadema. Desesperados foram morar em Aracaju, mas a família de Dona Enedina tratava mal o marido que a jovem escolhera, pois seu Manoel não tinha instrução e não sabia interagir muito bem com as pessoas. Muitas vezes foi chamado de “Bicho do Mato” pelo sogro. Sem conseguir emprego e o respeito da família de Dona Enedina, Seu Manoel decidiu voltar para São Paulo, ao menos lá tinha muitas chácaras e sítio, o que aumentava as chances de conseguir trabalho. Enedina ficou em Aracaju com os filhos, na casa do pai. Quando o pai das crianças foi embora pra São Paulo, D. Enaide, irmã mais nova de Dona Enedina, fez uma música em homenagem ao cunhado e sempre a cantava para os filhos de seu Manoel, se não me engano a letra era bem assim: “Manoel... Tabarel... Foi pro céu... Comer pastel”.

Passados quase cinco anos da separação, e mais de dois anos sem ver os filhos, o pai estava ansioso para ter os filhos em seus braços e matar a saudade. Quantas vezes, seu Manoel não pensara em seus filhos enquanto cuidava das plantas? Difícil dizer. O pai tinha em sua carteira uma fotografia das crianças pequenas que a mãe havia enviado pelos correios.  E não havia um dia que ele não olhasse a fotografia dos filhos, imaginando como estariam ou o que estariam fazendo naquele instante, longe dos olhos do pai.

Ele não conseguia a liberação do serviço, pois o patrão não estava disposto em deixar sua chácara ou sítio por um mês sem cuidados e vigilância, e se o caseiro falasse em se ausentar viam nisso a necessidade de encontrar imediatamente outra pessoa para substituí-lo. O pai, saudoso dos filhos, teve a ideia de contratar um amigo para ficar em seu lugar enquanto viajava, decidiu arriscar perder o emprego, e com muita insistência conseguiu convencer o patrão a deixa-lo viajar.

Naquele dia completava trinta dias que estava na cidade nordestina, junto de seus únicos filhos de sangue, pois fizera uma cirurgia de vasectomia e por isso não teria outros a não ser que fossem adotados... mas de sangue mesmo, só aqueles três: Danielle, Daniel e Daniela.

Eles, o pai e os três filhos, voltavam felizes do passeio. Chegando em frente à casa os dois menores se despedem do pai com abraços e beijos e entram correndo para a casa mostrando a mãe o presente que ambos haviam ganhado do pai. Daniel havia ganhado um carro de fórmula um, que ele contente dizia ser do Airton Senna. Daniela havia recebido um jogo de panelinhas e já estava ansiosa para fazer comidinhas para as suas filhinhas, pois era assim que tratava suas bonecas. Danielle havia ganhado um ursinho amarelo, o pai queria dar-lhes uma boneca, mas ela teimou que queria um ursinho, ninguém sabia o porquê de ela, de repente, ter criado cisma de bonecas.

Enquanto os dois menores estavam já em casa, Danielle, como sempre, era a última a se despedir do pai. Naquele dia o pai se despedia triste e dizia que no dia seguinte voltaria para a cidade paulista. Diante da notícia a menina sentiu como se seu mundo estivesse desabando, e com os olhinhos cheios de lágrimas ela suplicou:

- Pai não vá embora não! Fique aqui... fique painho!
O pai triste, por não poder atender o pedido da filha, disse:
- Filha, o pai tem que trabalhar... senão como é que o pai vai viver? Por mim eu ficava, mas não posso filha!

A menina, não conseguindo conter as lágrimas disse aos choros:
- Pai, não vá ... fique por favor... o senhor não gosta mais da gente não é?
O pai ao ouvir aquilo sentiu-se impotente, com os olhos lacrimejando e como se tivesse um nó na garganta, baixou a cabeça como quem procurasse as palavras certas para responder, conseguindo segurar o choro e com a voz severa e calma cantou para a filha:


“Nunca mais me fale assim e deixe de chorar
Menina diga que você por toda a sua vida
Vai me querer bem
Eu juro que não vou deixar de querer também
Deixe de ser triste assim, esqueça o que passou
Esqueça que você chorou
Carinha de tristeza não lhe fica bem
É tempo de saber amar o amor que vem
Menina eu também já fui de chorar
Sofrer por causa de um amor
Depois que a gente vive aprende por fim
Que amor não se resolve assim”


Danielle ouvia o pai cantar e chorava compulsivamente. Ao ver os olhinhos azuis do pai lacrimejando, sentiu a dor aumentar em seu peito. Achava aquilo uma malvadeza, não entendia que seu pai também chorava por dentro. O pai sem conseguir mais conter as lágrimas diz chorando:

- Fia... nunca se esqueça duma coisa... [disse o pai segurando a mão da filha e olhando em seus olhos, depois continuou]... o pai ama muito ocê e seus irmãos... Sua mãe e eu não estamos mais juntos... [ao dizer isso fez uma pausa, depois continuou a falar]... mas o pai ama muito ocês ... nunca se esqueça disso!
Ao ver que a filha continuava emburrada e chorando, o pai disse:

- Eu e sua mãe tentamos viver bem... mas a vida ficou muito difícil lá em São Paulo... fiquei desempregado... [novamente fez uma pausa e enxugou as lágrimas, depois continuou falando] ... aí sua mãe recebeu uma carta de seu avô e viemos embora... mas não deu certo e eu tive que voltar...  eu não queria deixar ocês ... [disse enxugando as lágrimas] mas sua mãe não quis voltar pra São Paulo com o pai... mas ela é sua mãe, né... ela fez o que achou melhor pra ocês... lá a gente não tinha nem o dinheiro pra comprar o remédio pra ocês... [fez uma pausa, depois continuou] ... sabia que você e o Daniel tiveram início de bronquite?... vocês não aguentaram o frio de São Paulo não, mia fia... [depois o pai vendo que a filha ainda chorava, disse]... bem, deixa pra lá... a vida segue em frente... [abrindo os braços para a filha disse] ... Vem cá, não fique assim não... dá um abraço no pai...

Os dois se abraçaram e a menina ainda tristonha e enxugando as lágrimas olhava a imagem do pai partindo até sumir de vista. Ela não sabia que depois, já adulta, ouviria aquela música que o pai cantou para ela e choraria em silêncio lembrando que tem um pai que a ama em algum lugar desse mundão de Deus.



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