sábado, 23 de abril de 2016

Entre o segredo e a chave


- Em um só livro há muitos segredos. Abrir um livro é como abrir uma porta para muitas outras portas. Todas elas bem lacradas com cadeados a proteger valiosos segredos. Para compreender um livro é preciso ter uma chave, ou várias. Talvez seja impossível que um só leitor tenha todas as chaves para abrir todos os cadeados e livrar o livro de todos os seus segredos. Porém, quando um segredo de um livro é revelado abre as portas para outros segredos, e assim por diante... Isso nunca tem fim, pois um só livro tem infinitos segredos.
- Professor, que segredos são esses que o senhor tanto diz conter em um livro?
- Responda você! Disse o professor de Literatura Marcos, lançando a pergunta a sua turma do primeiro ano do ensino médio: Quais são os segredos guardados em um livro? Quem saberia dizer?
- As palavras? – Arriscou o primeiro aluno a falar, Daniel.
- Uma história! – Disse Pedro achando-se mais esperto.
- Aventuras? – Sugeriu Adriano.
- Romances! – Arriscou Roberta.
- Há... O amor! – Suspirou a romântica Maria.
- A sabedoria? – Falou a pensativa Helena.
- Os problemas sociais! – Disse Ana, uma das alunas mais dedicada da turma.
- A corrupção humana! – Falou o sério da turma, Paulo.
Depois de algumas respostas, a turma respondeu em silêncio com seus pensamentos. Notando que ninguém mais arriscava falar, o professor entra em cena:
- Bem, como eu disse, um livro tem vários segredos. Quando pensamos em segredo logo imaginamos: algo “valioso”, “importante”, “significativo”, “revelador” entre outras coisas que nos remeta a grandeza, riqueza e oculto.  Podemos dizer que os segredos de um livro são os valores da condição humana: sentimentos, anseios e ações da humanidade. As respostas que alguns de vocês apontaram fazem sentido, afinal um livro é composto por palavras, signos e significados, que são trabalhadas pelo escritor ou poeta que ao escrever uma narrativa, um poema, ou um poema-narrativo revelam as peculiaridades da humanidade, como por exemplo: o heroísmo do índio Sepé Tiaraju, conhecido por seu enfrentamento às tropas portuguesas e espanhóis na Missão dos Sete Povos da Missão como lemos em Sepé-o morubixaba rebelde de Fernandes Barbosa; ou a trágica aventura da nordestina alagoana Macabéa na cidade do Rio de Janeiro como conta Clarice Lispector através de seu narrador personagem Rodrigo S.M. de A hora da Estrela; ou através de uma denúncia da condição miserável do homem no poema O bicho de Manuel Bandeira, entre muitas outras da imensa fortuna literária que temos à disposição.
- Professor, então qualquer pessoa pode ter acesso aos segredos de um livro?
- Vamos esclarecer uma coisa: para ter acesso aos segredos de um livro é preciso ter a chave...
- E quem tem essa chave professor?
- Eu poderia responder, mas prefiro que vocês respondam. Quem é que tem as chaves para desvendar os segredos de um livro? – Disse o professor direcionando a pergunta aos alunos que se sentiram cutucados.
- O professor! – Falou Paulo.
- O escritor! – Disse Ana.
- O poeta? – Questionou Pedro.
- O intelectual! – Afirmou Helena.
- O estudante? – Arriscou perguntar David.
Cada um tinha um palpite! Uns tinham mais convicção que outros em sua resposta, outros eram meio duvidosos e respondiam perguntando, e outros preferiam o silêncio como resposta.  Apresentadas algumas das possibilidades de respostas ficaram todos olhando o professor de Literatura que os fitavam pensativo até o momento da intervenção:
- Hum! Vejo que ninguém falou claramente a palavra leitor, mas todos vocês acertaram!
- Hum? Como assim professor? Perguntou uma voz curiosa e atrevida. Era Helena quem fazia o professor expor os argumentos de sua resposta:
- Todos vocês acertaram, porque todos esses indivíduos que vocês falaram “professor, escritor, poeta, intelectual, estudante”... Todos eles são leitores! Concordam comigo?
- Há sim professor! – Disse Ana.
- É verdade! – Afirmou Helena.
- Se é assim, professor, então qualquer um pode ter a chave? – Perguntou Paulo.
- Será? – Rebateu o professor.
- Qualquer pessoa pode ser leitor é só ler!
- Me diga uma coisa: é todo mundo que pode ter a chave de uma casa? Pensem na suas casas e me digam!
- Na minha casa só minha mãe, meu pai e minha irmã mais velha têm a chaves de casa. – Disse Helena.
- Hum! E você, não tem a chave? – Perguntou o professor.
- Não! Eu não tenho! – Falou Helena.
- Por que sua irmã tem a chave de sua casa e você não? – Perguntou o mestre.
- Há, por que ela é a mais velha, ela trabalha, ela faz faculdade... – Respondia Helena quando o professor interrompeu perguntando:
- O que ela tem diferente de você que a faz apta a ter a chave da casa?
- Eu já disse professor... – Helena insistia na mesma resposta...
- Quer que eu lhe diga por que sua irmã tem a chave e você não? Helena respondia com o silêncio, e o professor prossegue: - Porque ela demonstra: capacidade, confiança e responsabilidade. Seus pais permitiram que ela possuísse a chave da casa porque ela demonstra ser uma pessoa capaz e confiável. Por outro lado, ela ao ter posse dessa chave sente-se mais responsável.
- Hum! E o que isso tem haver com o livro? – Perguntou a moça.
- Calma, vou chegar lá! Como eu dizia, um livro tem muitos segredos e para descobrir os segredos de um livro é preciso ter a chave. E quem tem essa chave é o leitor, o que é um privilégio, vocês não acham? O leitor é um ser privilegiado, infelizmente nem todos são leitores... por diversos fatores. Para ser leitor é preciso demonstrar-se capaz de sê-lo. Por isso que é importante o trabalho de alfabetização e letramento. Só depois de aprender a, não apenas, decodificar os signos linguísticos, mas, também, interpretá-lo que o indivíduo adquire a confiança e capacidade para tornar-se um leitor. Uma vez sendo um leitor, ele é responsável pelo segredo descoberto, ou seja, o novo conhecimento. Cabe ao leitor guardar para si esse segredo ou compartilhá-lo com outros, como faz o escritor.
- Professor, o senhor não disse que chave é essa que o leitor tem e que revela os segredos de um livro.
Pensemos o seguinte: - De um lado temos o livro – disse mostrando a mão esquerda, e prosseguiu – do outro lado temos o leitor – disse mostrando a mão direita, e continuou – é preciso a chave. Sabemos que a chave está com o leitor. Então é preciso uma força intrínseca para aproximar os dois, formando uma espécie de pacto entre o livro e o leitor – disse juntando lentamente as mãos e entrelaçando os dedos. Mas afinal, que chave é essa? Vamos ler esse trecho do poema A procura da poesia de Carlos Drummond de Andrade – falou iniciando a leitura do poema:

“Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?”

- A força intrínseca capaz de unir o leitor e o livro, é a mesma da qual Drummond se refere no primeiro verso do trecho lido: “Chega mais perto e contempla as palavras”. O que significa isso?
- Que devemos ler professor?
- Isso! Muito bem Helena! Leitura: essa é a chave que irá aproximar o leitor e o livro, formando o pacto de leitura. No entanto, ler não significa apenas decodificar os signos linguísticos, mas sim interpretá-lo. É preciso penetrar no universo mágico das palavras e descobrir seus sentidos ocultos, seus segredos mais íntimos. Eu espero que não somente nesse ano letivo, mas durante toda a vida de vocês muitas portas se abram e muitos segredos sejam revelados para aqueles que têm a chave e façam bom uso dela. - Ditas essas palavras, o professor Marcos deu por encerrada àquela primeira aula de Literatura.

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